Coral de 60 vozes emociona público na celebração dos 16 anos da Comunidade Dona Paula
Mais de 4 mil homens já foram acolhidos pela instituição, localizada no Sítio Bom Jardim, em Arapiraca
Canto, fé, emoção e histórias de superação marcaram a celebração dos 16 anos da Comunidade Dona Paula, realizada na manhã deste domingo (6), no Sítio Bom Jardim, zona rural de Arapiraca.
Um dos momentos mais marcantes da programação foi a apresentação de um coral formado pelos 60 homens atualmente acolhidos pela instituição. Sob a condução do pastor Ricardo, o grupo interpretou louvores que ganharam significado especial diante das histórias vividas por quem busca reconstruir a própria trajetória e retomar os vínculos familiares e sociais.
Familiares, convidados, colaboradores e pessoas ligadas à história da instituição acompanharam a apresentação, marcada por momentos de forte emoção.
Entre os presentes estava Rute Nezinho, atualmente afastada das atividades administrativas da comunidade durante o período eleitoral. Ao longo dos anos, Rute esteve diretamente ligada à condução da instituição e, durante a celebração, recebeu uma homenagem pelo trabalho desenvolvido.
“É uma história construída com muito trabalho, dedicação e, acima de tudo, amor pelas pessoas. Restaurar vidas significa devolver esperança, dignidade e a possibilidade de um novo começo”, afirmou.
Mais de 4 mil histórias de acolhimento
Ao longo de seus 16 anos de funcionamento, a Comunidade Dona Paula já acolheu mais de quatro mil homens, com idades entre 18 e 60 anos.
O ciclo de acolhimento dura aproximadamente seis meses e inclui atividades relacionadas à convivência comunitária, espiritualidade, acompanhamento emocional e social e preparação para a retomada dos vínculos familiares.
Para quem passa pelo programa, os seis meses representam mais do que uma mudança de endereço.
Um dos exemplos é Wesley Cristóvão, de 28 anos, morador do bairro Santa Lúcia, em Maceió. Depois de concluir seu período de acolhimento, ele retorna para casa neste fim de semana.
Wesley conta que a espiritualidade passou a fazer parte de sua rotina e teve papel importante durante sua permanência na comunidade.
“Eu nunca tinha aberto uma Bíblia na minha vida. Na nossa rotina, todos os dias temos contato com a Palavra de Deus. Além disso, a equipe técnica realmente se importa com a gente. Aqui, de fato, ganhamos uma outra família”, contou.
A experiência de José Roberto, de 56 anos, também ajuda a traduzir o trabalho desenvolvido na instituição.
Ele afirma já ter passado por seis comunidades terapêuticas em diferentes regiões de Alagoas, mas encontrou na Comunidade Dona Paula uma relação diferente com o acolhimento.
“Todas as casas de recuperação têm o objetivo de ajudar os dependentes. Mas essa é especial. A gente se sente valorizado nas pequenas ações do dia a dia, no tom afetuoso da voz, no olhar de compreensão e até na resolução de problemas que envolvem nossa família e que a equipe técnica ajuda a solucionar”, relatou.
Para Rute Nezinho, cada pessoa acolhida traz consigo uma realidade particular.
“Cada pessoa que passa por aqui traz uma história diferente. Quando conseguimos ajudar alguém a recuperar sua dignidade, reconstruir os vínculos com a família e voltar a acreditar em si mesma, sabemos que todo esforço valeu a pena”, afirmou.
Estrutura faz parte da rotina de recuperação
A psicóloga Mônica Araújo, atual diretora da instituição, explica que a estrutura da Comunidade Dona Paula foi desenvolvida para contribuir com diferentes aspectos da rotina dos acolhidos.
Além de um espaço destinado às atividades de espiritualidade, a comunidade possui dormitórios climatizados, laboratório de informática, campo de futebol, campo de areia, quadra de squash e áreas abertas para convivência e atividades.
A rotina também envolve práticas de convivência, atividades físicas e outras ações voltadas à disciplina, ao cuidado e à preparação para o retorno à vida familiar e social.
Um nome que carrega uma história
A celebração dos 16 anos também resgatou a história da mulher que dá nome à instituição.
Maria Jucicleide Pereira Melo, a Dona Paula, nasceu em 5 de setembro de 1932 e ficou conhecida em Arapiraca como “mãe dos pobres”, pela dedicação em ajudar pessoas carentes e doentes. A comemoração deste domingo aconteceu, portanto, apenas um dia depois da data de seu nascimento.
Sua trajetória de vida foi registrada em 2010 em um documentário idealizado e dirigido pelo filho Ricardo Nezinho. Anos depois, aquela experiência se tornaria a inspiração para o projeto Raízes de Arapiraca, criado para preservar em audiovisual as histórias de homens e mulheres que participaram da construção social, cultural e econômica do município.
O registro de Dona Paula destaca justamente aquilo que acabaria se tornando também a essência da instituição que leva seu nome: a disposição em acolher e ajudar quem precisava.
Dezesseis anos depois, essa memória permanece presente no Sítio Bom Jardim, não apenas no nome estampado na entrada, mas nas histórias de homens e famílias que encontraram ali uma oportunidade de recomeçar.



