História de Arapiraca

*O texto abaixo foi revisado pela professora Maria Zilma Barbosa da Silva Oliveira (Professora Zilma)

ORIGENS

ORIGENS

Segundo conta uma tradição do povo, remanescente do próprio fundador, a palavra Arapiraca tem origens indígenas e, por analogia, significa: “ramo que arara visita”. Entretanto, à luz da ciência, trata-se de uma árvore da família das Leguminosas Mimosáceas – Piptadênia (Piteodolobim), uma espécie de angico branco muito comum no Agreste e no Sertão e que o povo, a sua maneira, denomina de Arapiraca.

Então, foi nessa Arapiraca, a árvore frondosa e acolhedora, situada à margem direita do Riacho Seco, onde o fundador Manoel André Correia dos Santos acampou no primeiro dia, quando procurava uma fonte de água doce onde pudesse se instalar para tomar posse da propriedade Alto do Espigão do Simão de Cangandu adquirida em 1848, por seu sogro Capitão Amaro da Silva Valente Macedo, que residia no então Povoado Cacimbinhas, município de Palmeira dos Índios.

Quando realizava o primeiro desmatamento na área, auxiliado por trabalhadores, num dia de muito sol, Manoel André escolheu a árvore sombria, onde pudesse descansar ao meio-dia.

Encostou aí os instrumentos de trabalho e cuidou de preparar a “bóia”, quando então usou estas palavras: ” Esta Arapiraca, por enquanto, é a minha casa”.

Este seria o primeiro ponto de referência, o marco que, através do tempo, passaria à história.

Contam ainda os ramos ascendentes que, em seguida, Manoel André construiu, à sombra da árvore, uma cabana de madeira coberta com cascas de angico, onde passou os primeiros dias, enquanto fazia surgir a primeira casa, numa distância de cerca de cem metros, quando se instalaria com a família que viera de Cacimbinhas, no mesmo ano de 1848.

Em pouco tempo, formou-se um próspero sítio e, em 1865, quando Manoel André construiu uma capela, já havia um arruado de casas de taipa de duas águas, formando um quadro.

O povoamento de Arapiraca foi ocorrendo de forma sistemática, ou seja, tal qual as colonizações portuguesas tradicionais, o que resultou numa imensa árvore genealógica.

Assim, em 1848, o Capitão Amaro da Silva Valente de Macedo mandou o genro, Manoel André Correia dos Santos, comprar e ocupar a terra Alto do Espigão do Simão do Cangandu para localizar com a família, tendo em vista um sério incidente ocorrido entre Manoel André e o cunhado José Ferreira de Macedo.

Dez anos depois, (1858), o Capitão Amaro envia outro genro de nome José Veríssimo dos Santos, que ocupou a parte Sul da propriedade denominada Cacimbas. Em 1859, também seu cunhado Manoel Cupertino de Albuquerque (casado com sua irmã), que se instalou ao lado, no local denominado Baixão.

No final de 1860, Terezinha Nunes Magalhães (mãe de José Veríssimo), fica viúva de José Nunes Pereira de Magalhães, em Campos de Anadia e chega em Arapiraca em companhia dos filhos Domingos Nunes Barbosa, que fundou Canafístula, Estevão Nunes Barbosa, Manoel Nunes Barbosa (que fugiram da convocação da Guerra do Paraguai em Campos de Anadia e se refugiaram à margem de uma lagoa cercada de craíbas, na herança de José Pereira, seu irmão ,e de Manoel Ferreira de Macedo, genro e filho do Cel. Amaro da Silva Valente, onde surgiu a povoação Craíbas dos Nunes.

A partir de 1861, chegaram José Ferreira de Macedo, Manoel Ferreira de Macedo (cunhados de Manoel André), e o sobrinho Pedro Cavalcante de Albuquerque, filho de Joana da Silva Valente e Manoel Cavalcante de Albuquerque; os primeiros se instalaram na Serra dos Ferreira e Pedro Cavalcante nos Caititus. Em seguida, chegaram os irmãos de Manoel André: Manoel Eugênio, André Correia e José Sotero, que se estabeleceram no Sítio Mangabeira.

Estes foram os primeiros povoadores, cujas famílias cresceram e multiplicaram-se, entrelaçando-se (não havia gente de fora), e formando esta imensa árvore genealógica através do tempo. Todavia, o que dificulta atualmente a identificação das famílias é a não conservação do sobrenome dos ramos ascendentes.

Assim, alguns remanescentes de Manoel André como os filhos de Maria Rosa Correia dos Santos e Lúcio Roberto da Silva passaram a usar o sobrenome Lúcio; os filhos de José Veríssimo dos Santos foram assim registrados: Manoel Antônio Pereira de Magalhães, Antônio Leite da Silva, Esperidião Rodrigues da Silva, José Nunes de Magalhães, Joana Umbelina de Magalhães, entre outros.

Do tronco de Manoel Cupertino de Albuquerque, foram registrados os filhos com estes sobrenomes: Manoel Nunes de Albuquerque, Inocêncio Nunes de Albuquerque, Antônia Maria de Jesus e outros. Os filhos de Bernardino José dos Santos foram assim registrados: Pedro Leão da Silva, Antônio Raimundo dos Santos, João Francisco Aureliano, Maria Antônia dos Santos, Josefa Maria da Conceição, Euzébio José dos Santos e outros. O tronco de Manoel André tem, pois, os seguintes ramos: Correia, Lúcio, Inácio, Vicente, Fausto, Umbelina, Belarmino, Amorim, Oliveira e outros. Segundo conta a tradição, o sobrenome Lima surgiu com a presença de Felipe José Santiago, que teria vindo de Água de Menino, Junqueiro-AL.

Já o tronco de José Veríssimo dos Santos possui os ramos: Magalhães, Rodrigues, Leite, Barbosa, Nunes, Pereira, Ventura, Honório, Oliveira e outros. Os descendentes de João de Deus (casado com uma tia de Manoel André), mesclaram-se com as famílias já referidas e tomaram os mais variados sobrenomes. Quanto aos irmãos José Ferreira de Macedo, Manoel Ferreira de Macedo, Maurício Pereira de Albuquerque e Joana Leopoldina da Silva Valente (casada com Manoel Cavalcante de Albuquerque), seus descendentes têm os sobrenomes: Macedo, Albuquerque, Nunes, Ferreira, Alexandre, Cavalcante, Oliveira, Gama, Pereira e outros.

Conclusão, eram irmãos: José Ferreira de Macedo, Maurício Pereira de Albuquerque, Manoel Ferreira de Albuquerque e as esposas de Manoel André, José Veríssimo Pereira, Joaquim Pereira e Manoel Cavalcante de Albuquerque que eram filhas do Capitão Amaro da Silva Valente.

O POVOADO

O POVOADO

Edificado à margem direita do Riacho Seco, a princípio Arapiraca se estendeu por uma faixa de planalto coberta por densa vegetação típica do agreste, onde se destacavam: Pau d’Arco, Cedro, Angico, Massaranduba, Aroeira, Pau Viola, Quixabeira, Umburana, Jurema, Braúna, Pau Ferro, Canafístula, Cajarana e, principalmente, a árvore símbolo – Arapiraca.

Contando com uma privilegiada localização e impulsionada pela extraordinária capacidade de trabalho de seu povo, Arapiraca estaria fadada a cumprir uma florescente trajetória através dos anos.

No início deste século, Arapiraca ainda era edificada com casas de taipa, modelo duas águas com biqueira, existindo duas construções em alvenaria: uma, no Quadro – atual comércio, construída pelo Capitão Chico Pedro e, outra, na Rua Nova – atual Praça Deputado Marques da Silva, um sobrado construído por Antônio Apolinário e que depois serviu de Paço Municipal.

Até então, havia ainda em Arapiraca vestígios dos primeiros tempos da fundação. Existiam, em pleno centro urbano, muitas árvores nativas em cujas sombras os feirantes colocavam carros de boi, amarravam animais e a meninada da época brincava diariamente. Na rua Nova, existia um viçoso Pau d’Arco, próximo à Igreja de São Sebastião e um frutífero Jenipapeiro em frente à casa de Tibúrcio Valeriano. Conta-se que, certa vez, o pe. João Maria, de passagem por Arapiraca, observando o verde destas árvores, afirmara que em seu subsolo, não muito distante, com certeza passaria algum lençol d’água, daí o vigor daquelas plantas tão verdes. E sugeriu, na ocasião, que se alguém cavasse um poço, a poucos metros de profundidade, encontraria água abundante. Aproveitando a sugestão, José Magalhães cavou uma cacimba que, durante décadas, forneceu água gratuita à população daquela época.

No comércio, existiam diversos umbuzeiros ao longo do quadro e uma velha tamarineira, em frente à loja de José Lúcio da Silva, em cuja sombra nasceu a feira e onde os trabalhadores Vicente Flor, João Higino, Belo, Joca da Serra, Pedro Alexandre, André Marchante e outros penduravam a carne para vender.

Havia ainda um lendário coqueiro, situado em frente à igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho que, segundo informações do Sr. Toinho Cavalcante, vinha dos tempos da fundação de Arapiraca e era considerado como uma relíquia pelos descendentes de Manoel André.

Onde foi aberta a Rua do Cedro – atual Av. Rio Branco, havia uma série dessas árvores, as quais, tempos depois, foram destruídas. Finalmente, abaixo do comércio, antes da atual ponte sobre o riacho, estava situada a frondosa e verdejante Arapiraca, que serviu de sombra acolhedora ao primeiro habitante e assistiu, como testemunha muda, ao nascimento de uma cidade com o seu próprio nome. Infelizmente, o marco foi destruído para dar passagem ao progresso, talvez…

A CIDADE

A CIDADE

Quando Arapiraca foi elevada à condição de cidade, em 1924, contava, apenas, com cinco logradouros públicos incompletos e alguns acessos. assim, existia o Quadro – atual praça Manoel André, a rua Nova – hoje Pça. dep. Marques da Silva, a rua Pinga Fogo – atual rua Aníbal Lima, início da rua Boca da Caixa e que, depois, passou a ser denominada de rua 15 de Novembro e início da rua do Cedro – atual Av. Rio Branco.

Após a emancipação, aproveitando um largo que saía da extremidade da rua Nova em direção à localidade de Cacimbas, o prefeito eleito, Major Esperidião Rodrigues da Silva, construiu a rua do Cedro (cedendo uma faixa de terra de sua propriedade), que depois passou a ser chamada Av. Rio Branco. Além desses logradouros, existia ainda o Beco dos Urubus, que saía do centro do Quadro em direção à lagoa, onde o comerciante Firmino Leite estendia couros para secar ao sol, atual saída para a ponte do Alto do Cruzeiro. Afora isso, existia um largo que partia da rua Nova em direção ao cemitério (onde está situada a Concatedral de Nossa Senhora do Bom Conselho), onde por muito tempo, existiu um matadouro – atual Largo D. Fernando Gomes.

Um panorama bucólico dominava a cidade naqueles tempos idos. A presença de animais pastando em plena rua era uma constante e dezenas de carros de boi trafegavam diariamente, escutando-se o contínuo ranger das rodas nas tardes ociosas do verão. À noite, os jovens contavam estórias sentados nas calçadas e os mais conservadores rezavam ofícios e novenas na igreja. A vida era aquela rotina e até o tempo demorava a passar, pois o movimento era pequeno e as horas eram ociosas. Enfim, a cidade parece até que vivia parada no tempo. O progresso ainda estava longe e o casario de formas singelas dava ainda a impressão de um povoado.

A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA

A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA

Um dos capítulos mais importantes da história de Arapiraca e que merece registro é a luta empreendida pelo líder da emancipação Major Esperidião Rodrigues da Silva, a partir de 1918, quando assumiu o comando da campanha em prol da emancipação política do distrito de Arapiraca.

Foram anos de preocupações e sacrifícios, enfrentados pacientemente pelo líder da campanha, realizando reuniões e preparando relatórios sobre a área do povoado, número de imóveis, de habitantes, de propriedades rurais, atividades comerciais, produção agrícola, enfim, toda economia local, para, de posse desses subsídios, provar que o distrito de Arapiraca poderia sobreviver emancipado de Limoeiro de Anadia.

Convém frisar que naquela época ainda não existia automóvel no interior e as exaustivas viagens à capital do estado eram realizadas a cavalo e o Major Esperidião Rodrigues tinha que inevitavelmente passar por Limoeiro de Anadia, cujas lideranças políticas envidavam esforços, tentando a todo custo obstruir o trabalho e a tramitação do processo de emancipação do distrito de Arapiraca.

Então, as hostilidades eram constantes e quando o nosso libertador passava humildemente por Limoeiro de Anadia, em demanda da capital Maceió, ouvia impropérios e achincalhes dirigidos à sua pessoa, por causa de sua luta em prol da emancipação de Arapiraca, numa fase em que imperava a oligarquia da família Barbosa, que tinha livre acesso aos bastidores do Palácio dos Martírios, como políticos de situação e bem prestigiados.

Homem abnegado, era uma verdadeira peregrinação que o Major Esperidião Rodrigues fazia há anos, frequentando secretarias, Assembleia Legislativa, Tribunal de Justiça, Palácio do Governo e outros órgãos, onde o líder da campanha ficou muito conhecido e os funcionários e assessores, quando o avistavam ao longe comentavam entre si: “Lá vem o homem dos olhos azuis outra vez..”

O tempo foi passando até que, enfim, apareceu uma luz no fim do túnel e o panorama começa a clarear com a presença oportuna do Deputado Odilon Auto (natural de Pilar), que, acompanhando o sacrifício do Major Esperidião Rodrigues, resolveu apoiar e defender a causa da Emancipação Política do então distrito, reivindicada pelo laborioso povo de Arapiraca.

Agora, de posse da documentação necessária, o Deputado Odilon Auto se engaja na luta e passa a preparar o projeto para enfrentar a fase mais difícil: convencer a maioria dos deputados e votar pela aprovação do Projeto de Lei para posterior sanção pelo Governador dr. José Fernandes Lima.

Foi uma tarefa árdua enfrentada pelo Deputado Odilon Auto que, durante meses, se empenhou com toda capacidade de trabalho pela justa causa da emancipação do Distrito de Arapiraca, contrariando os interesses dos políticos de Limoeiro de Anadia, que não desejavam perder a renda mensal do seu mais importante distrito que era Arapiraca.

O líder Esperidião Rodrigues, impaciente com a burocracia da tramitação do processo, tomou uma atitude: viajaria a Maceió e só voltaria para Arapiraca após o resultado final – ou tudo ou nada. Foi com essa decisão que chegou à capital na primeira quinzena de abril e durante 40 dias permaneceu ao lado do Deputado Odilon Auto, acompanhando a tramitação do Projeto de Lei nº 1009, que, após vários debates e discussões acaloradas, foi finalmente aprovado pela Assembleia Legislativa e sancionada pelo Governador dr. José Fernandes Lima, no dia 30 de maio de 1924. Foi um relevante serviço prestado pelo Deputado Odilon Auto à causa da emancipação e uma grande vitória para o líder da campanha Major Esperidião Rodrigues da Silva, o grande idealista.

ESPERIDIÃO RODRIGUES

Nasce na Vila de Cacimbinhas em 16 de junho de 1858,Esperidião Rodrigues da Silva, filho de José Veríssimo Nunes dos Santos e Ana Maria da Silva Valente.

Neto materno do português Amaro da Silva Valente de Macedo e de Izabel Pereira da Rocha Pires. Em janeiro de 1859, seu pai resolve transferir-se para o povoado de Arapiraca, onde lá já residia seu cunhado Manoel André Correia dos Santos; chegando em Arapiraca, fixa residência na parte denominada de “Cacimbas”; nesta época, Esperidião tinha seis meses de vida. Sua infância foi muita boa, brincava entre as árvores e pássaros e sonhava com uma cidade tranqüila e bem povoada. Seu pai, católico fervoroso, criou a família dentro dos padrões de honestidade, respeito e amor ao trabalho.

Casa-se Esperidião com 17 anos de idade, (1875),com sua prima Joana Belarmina de Macedo, casamento acertado por seus pais, como era de costume da época e ele não ia fugir à regra. Desta União, nasceram os filhos: André Rodrigues de Macedo, Serapião Rodrigues de Macedo, Domingos Rodrigues de Macedo, Lino Rodrigues de Macedo, Antônio Rodrigues de Macedo, Jonas Rodrigues de Macedo e Cecília Rodrigues de Macedo.

Esperidião tinha em seus planos montar uma casa de Comércio. Sempre que levava cargas de algodão para vender em Penedo, voltava com tecidos e outras mercadorias para montar sua loja. Estas idas e vindas de pessoas, a fim de comerciar ficou conhecida como “A rota do São Francisco”.

Esperidião, como homem de visão, viu a necessidade da proteção aos viajantes pelas estradas desertas, então sugeriu a criação de uma guarda policial. Sua ideia foi aceita. E esta guarda ficou sob o comando de João Magalhães, que impôs respeito e ordem. Esperidião torna-se o 1º comerciante em 1880, e do Povoado de Arapiraca, em 1848, Esperidião criou a feira de Arapiraca, a fim de facilitar a vida dos moradores do povoado.

Esperidião foi eleito, Presidente do Conselho da Vila de Limoeiro em 1892. Neste mesmo ano, conseguiu do Governo a criação de uma escola para o povoado; como também a criação do Cartório do Registro Civil para casamento, nascimento, óbitos e uma agência dos correios.

Casa-se pela segunda vez com Balbina Farias de Melo, em 1897, desta união nasceram Amália Rodrigues da Silva, José Rodrigues da Silva, Genésio Rodrigues da Silva, Virgílio Rodrigues da Silva, Laura Rodrigues de Melo, Juvênio Rodrigues de Melo, Rosa Rodrigues de Melo, Gondiz Alves Rodrigues de Melo e Marieta Rodrigues de Melo. Esperidião funda no Povoado de Arapiraca, (1908), uma Sociedade Musical denominada: “União Arapiraquense” cujos instrumentos musicais foram adquiridos em Paris (França).

O Governador Cel. Clodoaldo da Fonseca nomeia, em 1915, Esperidião à Intendente da Vila de Limoeiro de Anadia até 1918. Destacando-se como líder político da atualidade.

No fim de 1918, Esperidião, desgostoso com a política, vende suas propriedades, reúne os filhos e vai fixar residência no povoado da Igreja Nova, mas, depois de estabelecido no comércio, a sua saúde começa a preocupar, então ele resolve mudar-se para Lagoa Comprida, Povoado que fica às margens do Rio São Francisco.

Chega à Lagoa Comprida, em abril de 1924, seu sobrinho Domingos Lúcio da Silva, com uma missiva a qual pedia a presença de Esperidião para liderar os rumos da Emancipação do Povoado de Arapiraca da Vila de Limoeiro de Anadia.

Daí, Esperidião reuniu a família, participa a todos que Arapiraca precisa de seu empenho e que tudo fará para ver concretizado o sonho de todos arapiraquenses.

Neste mesmo mês, Esperidião volta a Arapiraca e segue para Maceió, a fim de manter contato com as autoridades do estado, para que o processo de emancipação tenha trâmite legal e possa ser votado pelos deputados. Foi muito longo o tempo de espera, mas Esperidião não desiste. Todos os dias estava no palácio falando com um e com outro, até que se encontra com o deputado Odilon Auto, que mantém uma conversa bem reservada e obtém do mesmo a aprovação de assinar a proposta apresentada. Mas não dependia só dos deputados, tinha que ter a autorização do Secretário da Fazenda, na pessoa do dr. Castro de Azevedo que se mantinha intransigente, achando o mesmo que havendo a separação de Arapiraca com Limoeiro esta seria prejudicada. Então Esperidião prometeu que com a emancipação de Arapiraca , Limoeiro continuaria economicamente forte. Depois de falar novamente com o Governador, este por sua vez manda que ele entre em contato com o Secretário da Fazenda e ouve dele esta frase: “ Não prometo trabalhar pela emancipação de sua terra, mas prometo não criar dificuldades às suas pretensões”. Neste mesmo dia, subiu a plenário o processo e foi votado favorável. Recebe Esperidião um telegrama oficial no dia 31 de maio de 1924, no qual relatava:

Cel. Esperidião Rodrigues da Silva Arapiraca Limoeiro Acabo sancionar Projeto Lei criando município de Arapiraca, com cuja população laboriosa, adiantada e progressista me congratulo por intermédio amigo, grande incansável paladino dessa conquista que representa ato de justiça aos poderes públicos e a um povo que se levanta por si próprio, que tem iniciativa e que progride. Cordiais Saudações Ass. Fernandes Lima- Governador do Estado

O jornalista Pedro da Costa Rego empossa a junta governativa de Arapiraca em, 30 de outubro de 1924.

Leitura do termo de posse pelo juiz dr. Medeiros da cidade de Palmeira dos Índios em, 07 de janeiro de 1925.

Esperidião é eleito prefeito da Vila Arapiraca,07 de janeiro de 1925, tendo como vice José Zeferino de Magalhães e governaram até oito de janeiro de 1928.

Esperidião é eleito pela 2ª vez prefeito de Arapiraca,(1930), tendo como vice Antônio Romualdo e governaram até 1932, quando rebentou a revolução. Daí por diante, os prefeitos eram nomeados pelos Interventores que recebiam uma lista contendo cinco nomes, era escolhidos o prefeito com seu respectivo vice.

Casa-se Esperidião, pela 3ª vez, com Maria Rodrigues no ano de 1936.

Falece na cidade de Arapiraca, aos 85 anos de idade, no dia três de julho de 1943, Esperidião Rodrigues da Silva, e é sepultado no cemitério local, após terminar a sua caminhada cívica, como cidadão brasileiro e arapiraquense, com a consciência tranqüila do dever cumprido.

A PRIMEIRA ADMINISTRAÇÃO

A PRIMEIRA ADMINISTRAÇÃO

Com Arapiraca cidade, ocorreu a primeira eleição em janeiro de 1925, com um candidato único, cuja posse ocorreu no dia sete de janeiro do corrente, o prefeito eleito Major (guarda nacional), Esperidião Rodrigues da Silva, um homem íntegro, abnegado e consciente de suas responsabilidades, entregou-se de corpo e alma ao cargo eletivo outorgado pelo povo e como primeiro mandatário passou a nortear os destinos de sua terra natal e, apesar de não contar com uma Câmara de Vereadores para legislar, foi resolvendo tudo individualmente sem contar com nenhuma subvenção estadual e nem federal para a Administração. Nos primeiros meses, foi realizado com os parcos recursos da arrecadação dos impostos do centro urbano: atividades comerciais, feira livre, imposto predial, matadouro. Tomando também a decisão de arrecadar impostos na zona rural, inclusive, das propriedades e dos animais bovinos e caprinos existentes. Só isentou de taxas os carros de boi porque transitavam carregando farinha, cereais, lenha e tijolos para as construções. E para aumentar a coleta nos dias de feira, conseguiu uma área por traz do comércio, para recolher os animais e também fazer a cobrança pelas corridas – era a “Intendência”.

No primeiro ano (1925), o prefeito Esperidião Rodrigues da Silva conseguiu planejar a primeira obra, considerada uma prioridade para a nova cidade – uma área para construção de um cemitério para o município,que seria no final da antiga rua da matança, atual Largo D. Fernando Gomes, onde cinqüenta anos depois foi edificada a Concatedral de Nossa Senhora do Bom Conselho e também o calçadão onde acontece a “Missa do galo” e outros eventos religiosos, durante o ano.

No ano seguinte, em 1926, a iniciativa privada dava os primeiros passos com o Sr. João Magalhães instalando uma “bolandeira” – um vapor para descaroçar algodão, um grande empreendimento para a época. E nesse mesmo ano, para realizar o seu grande sonho, o prefeito Esperidião Rodrigues da Silva tomou a decisão de projetar uma rua para marcar a sua passagem pelo poder público – seria a Av. Rio Branco, aproveitando para isso um longo corredor que saía da rua Nova ( atual praça Dep. Marques da Silva ) ,em direção à Cacimbas, cedendo uma faixa de terra de duas tarefas de sua propriedade. Aberto o logradouro, o prefeito escolheu um local privilegiado e também cedeu gratuitamente o imóvel para a construção da primeira Prefeitura de Arapiraca, que a partir de 1950 foi instalada a Câmara de Vereadores.

O PAÇO MUNICIPAL

O primeiro sobrado edificado em Arapiraca foi construído pelo comerciante Antônio Apolinário, na rua Nova (atual Praça Dep. Marques da Silva), e este prédio colonial foi escolhido para servir de sede para a festa de posse da Emancipação Política de Arapiraca, na data de 30 de outubro de 1924, que contou com a presença do então Governador Pedro da Costa Rego que participou também do baile comemorativo.

No sobrado antigo, chamado na época de Paço Municipal, passou a funcionar a junta Governativa, formada por líderes da comunidade, presidida por Francisco de Paula Magalhães, cuja gestão provisória foi de 31 de outubro de 1924 a 1º de janeiro de 1925, quando foi eleito (candidato único), O primeiro prefeito, o Major Esperidião Rodrigues da Silva.

No Paço Municipal, continuou também a Administração Municipal que passou a ser a primeira prefeitura de Arapiraca na Av. Rio Branco. Após a saída da Administração Municipal, no Paço Municipal, passou a funcionar a primeira Delegacia de Polícia, e mais adiante o imóvel serviu para a instalação do primeiro hotel da cidade, o Hotel Estrela,que passou por sucessivos proprietários. Até que, em 1952, o Paço Municipal passou para a iniciativa e, em 1970, foi demolido o prédio já descaracterizado, onde foi construído o edifício atual com uma grande loja no térreo e salas para escritórios nos andares superiores. Infelizmente, a exploração imobiliária eliminou os prédios históricos, testemunhas do passado, prejudicando a memória da cidade.

AS COISAS DO POVO SIMPLES

AS COISAS DO POVO SIMPLES

Antes que a fase de desenvolvimento atingisse Arapiraca, muitas águas rolaram por baixo da ponte e uma infinidade de fatos e coisas interessantes ocorreram na pequena urbe.

Longe estava a cidade da chamada civilização do consumo até 1950, Arapiraca era mais povo e produzia aquilo que consumia.

Assim, em vez de “iogurte”, tínhamos a coalhada escorrida que a velha Cipriana fazia com capricho numa panela de barro, no sítio Lagoa da Pedra e vendia pelas ruas de Arapiraca.]

As margaridas, umas pretas lavadeiras, vinham duas vezes por semana buscar roupas para lavar e trazer ervas, cascas e raízes para vender nas portas das casas. Era raspa de juá, mijo de ovelha, jericó, erva de passarinho, etc.

As mulheres do sítio Mata Limpa faziam macasada, beiju, pé-de-moleque e traziam, também, bredo majongomes para vender na semana santa ao povo de Arapiraca.

O velho Camilo do Sítio Fernandes fazia cachimbos de barro em quantidade, para abastecer os vendedores na feira de Arapiraca, onde era muito conhecido pela qualidade do produto.

Dona Maria Nobre ganhava seu dinheiro tinturando roupa do povo que botava luto e usava uma lama preta que existia no Poço Frio à margem do Rio Perucaba.

O prefeito de Arapiraca Manoel Lúcio percorria as ruas em sua charrete, inspecionando as obras (e as bodegas) do município. Quando voltava era “naquela base”; sua sorte era o fato de o cavalo conhecer o caminho da volta.

O velho Caio percorria a cidade vendendo seu produto aos usuários – o melado de Sergipe: “olhe o melado de Sergipe…”. Mas ficava irritado com a meninada que lhe importunava diariamente, com esta indagação – “ fumo velho o que é? “ E o velho respondia: ” – Pacaio é a sua mãe”.

Dona Otília, a criatura que fazia o melhor suspiro da paróquia, era a figura indispensável quando se tratava de festinhas e aniversários.

Atualmente, até as figuras populares estão desaparecendo, pois Arapiraca passa por uma transformação muito rápida e até o “cantar do galo”, coisa tão comum nas cidades interioranas, já é muito raro. Enfim, as coisas do povo simples já não ocorrem como no passado.

Extraído do livro “Arapiraca através do tempo” do historiador Zezito Guedes.

OS SÍTIOS

OS SÍTIOS

Mesmo com a presença dos grandes latifúndios na década de 40, Arapiraca possuía um verdadeiro cinturão verde circundando a cidade; sentia-se o cheiro da vegetação logo na saída das ruas, pois, ainda existia uma infinidade de ervas e frutas silvestres muito próximas do centro.

Contudo, quando Arapiraca conheceu a fase de desenvolvimento, a partir de 1950, o aspecto geral mudou muito, tendo em vista a mutilação desencadeada, tanto na área urbana, como na zona rural do município, quando foi destruída muita vegetação nativa para dar lugar à cultura de fumo.

Assim, havia o sítio de Caititús, um recanto aprazível repleto de fruteiras: cajueiros, mangueiras, laranjeiras, goiabeiras, mamoeiros, cujos frutos eram consumidos pela família, vizinhos e amigos, pois naquela época não havia mercado. Hoje a cidade cresceu e absorveu os Caititús que, de sítio, passou a bairro. A Serra dos Ferreira, um dos sítios mais antigos, foi onde se instalaram os Ferreiras de Cacimbinhas. Era um lugar agradável, com muitas árvores frutíferas, onde o capitão João Ferreira criava pavões em quantidade. Hoje está muito diferente, com a devastação que lhe foi imposta.

O Sítio Mocó, o reduto do velho Lúcio Gomes, foi o mais castigado pela evolução. Era no sítio Mocó que se realizavam animadas festas de fim de ano, freqüentadas pelos jovens da sociedade arapiraquense. Quando asfaltaram o trecho da AL – 102, ligando Arapiraca à Taquarana, o asfalto destruiu totalmente o sítio Mocó com a igreja, riscando-o do mapa do município.

A Lagoa de Dentro foi outro sítio que foi vítima da transformação ocorrida na zona rural, e praticamente foi eliminado, dando lugar a vastas plantações de capim para criação de gado. Era no passado o mais animado dos sítios e dava-se ao luxo de promover bailes carnavalescos, fazendo concorrência com o carnaval de Arapiraca. Naquele tempo,dizia-se que o povo de Lagoa de Dentro vivia de festa o ano inteiro.

A Baixa Grande era um sítio onde estavam radicadas as tradicionais famílias – raízes de Arapiraca: José Emídio, Alexandre, Honório, Estevão, Messias, Bernardino e outras, que realizavam o chamado “derradeiro dia do fumo” e também animados pagodes do Gervásio. Existiam muitas fruteiras, onde o povo de Arapiraca costumava fazer passeios e piqueniques aos domingos e feriados. Suas festas de santos eram muito animadas.

O Sítio Fernandes era, talvez, o mais antigo e foi onde Manoel André foi buscar telhas para cobrir a primeira casa que construiu em Arapiraca. Era um celeiro de almocreves e de bons tocadores de pé de bonde, onde havia muitas festas. Coberto de frutas nativas e densa vegetação, do sítio, hoje, resta apenas um próspero distrito de Arapiraca.

O Sítio Guaribas era outro recanto muito animado e também um celeiro de frutas tropicais que a juventude da época costumava freqüentar. Era lá que morava o velho Simão Lopes, figura boêmia e folclórica muito conhecida nas ruas de Arapiraca. Era um local onde o povo gostava de dança do coco e cantar na colheita do fumo.

Entretanto, o sítio mais festejado e procurado pela meninada de então era o saudoso Poço frio, onde morava Né Magalhães, o velho Pedro Cavalcante e outros. Além das frutas comuns, existia uma infinidade de frutas silvestres como: umbu, jabuticaba quixaba,maçaranduba, pinha brava, azeitona, gogoia, juá e principalmente araçá. Segundo informa Edson Raimundo, os sabias eram tão gordos de tanto comer araçás, que quase não podiam voar. Foi outra vítima do progresso que devia ter sido poupada, pois foi a inútil barragem riacho Perucaba que eliminou o Poço Frio.

O Sítio Capiatã era um dos recantos bucólicos cheio de fruteiras: foi onde o fogueteiro Pedro Nunes edificou toda família e terminou seus dias. Atualmente, com a corrida imobiliária, o sítio ficou ligado ao centro urbano através da rua Pedro Nunes de Albuquerque.

Mais adiante, vinha o sítio Macacos, com a Igrejinha da Menina, um local romântico onde o velho Beijo realizava a festa de São Pedro, com uma animado pagode até o amanhecer do dia.

Logo após, está o sítio Massaranduba, outrora coberto de fruteiras, muita vegetação nativa e frutas silvestres. As festas na casa de Zé Vermelho, Luís Vicente, Tertuliano e as destalagens de folhas de fumo na casa do velho Euzébio, quando as moças cantavam o dia todo.

No Sítio Cavaco, residiam Antônio Ventura, João Ventura, Luiz Alexandre, José Macário, João Lúcio da Silva, e mais adiante Né Ângelo, Pero Alexandre, José Rufino, João Rufino, João Alexandre dos Santos e outros.

Extraído do livro “Arapiraca através do tempo” do historiador Zezito Guedes.

OS BODEGAS

AS BODEGAS

Muito comum, no passado, era a presença das “bodegas” que, geralmente, o povo usava como ponto de encontro.

Além da função comercial junto à comunidade, existia o fator comunicação. Era nos adjuntos de bodega que o povo falava do tempo, produção agrícola, mercado, carestia, política, religião, cangaço, nascimento, transitoriedade, vida alheia, as “novas” do dia, as “estórias de trancoso”, como “a obra da raposa”, que seu Ivo contava; as mentiras inventadas por Zé Lopes ou as glosas que Simão Lopes, João Canário e Domingão improvisavam entre uma bicada e outra.

As reuniões nas bodegas constituíam uma hábito tradicional e, a partir dos anos 20, muitas ficaram famosas em Arapiraca. Na rua Nova (Pça. Marques da Silva) ,Toinho Rodrigues mantinha uma pequena bodega (não tinha bebidas), que era o ponto de encontro dos políticos: Tibúrcio Valeriano, José Lúcio da Silva, João Ribeiro Lima, Genésio Rodrigues, José Bernardino, Antônio Apolinário, entre outros. No final da rua Nova, Domingos Romualdo possuía uma bodega sortida, onde reunia um bom número de fregueses para as conversas do dia. Na rua do Cedro, esquina com a rua do Arame (Rua São Francisco), Manoel Petuba mantinha uma boa freguesia, quando o povo dava uma prosa diariamente. Na Boca da Caixa, Luiz Pereira Lima se estabeleceu, em 1929, com a bodega onde começou vendendo banana, pinha, jaca. Depois colocou algumas garrafas de aguardente, onde o povo daquela área fazia adjunto diariamente.

Na rua da Matança, André Félix instalou-se com uma bodega onde também reunia uma boa quantidade de fregueses, aí fazendo ponto de encontro todos os dias. Na rua do Cemitério, também se estabeleceram José Iziano e Pedro Arisitides com o mesmo ramo de bodegas. Ainda na Rua do Cedro José Oliveira, que comprou o negócio de Manoel Petuba, manteve uma sortida bodega com boa freguesia durante muitos anos; essa bodega de balcão ensebado, algum tempo depois passaria para as mãos do velho Morais, onde a meninada da atual Av. Rio Branco comprava bananola até o início dos anos 50.

Extraído do livro “Arapiraca através do tempo” do historiador Zezito Guedes.

A CULTURA DO FUMO

A CULTURA DO FUMO

A região onde está situado o município de Arapiraca sempre cultivou cereais e a mandioca sempre foi o seu principal produto desde 1848. A cultura do fumo foi iniciada nos últimos anos do século XIX e teve como pioneiro Francisco Magalhães que, acolhendo sugestões de um almocreve de Lagarto-SE, chamado Pedro Vieira de Meio, que comerciava nas feiras da então vila de Arapiraca, plantou fumo pela primeira vez em um curral onde cuidava de gado no atual bairro de Cacimbas. Daí a expressão curral de fumo, ainda hoje empregada pelos plantadores de fumo da região, no seu primeiro estágio.

A plantação de fumo nos currais foi feita durante alguns anos, passando em seguida para os chamados baixos, no início deste século. Semeavam o fumo nos currais e quando a planta nascia era mudada para canteiros nos referidos baixios; a muda de planta vem dessa época quando foi cultivada até o ano de 1922. Essa fase constitui o segundo estágio e, nessa época, além de Francisco Magalhães, já cultivavam o fumo seus irmãos Rosendo Magalhães, Manoel Magalhães, João Magalhães, Marcelino Magalhães e seus parentes Domingos Barbosa, Pedro Leão, Messias Bernardino, Tibúrcio Valeriano, Pedro Honorato, Ambrosino Lima, Vicente Correia, Manoel Leite, João Barbosa, Firmino Leite, João Ferreira e outros.

Os fumicultores mais prósperos já plantavam (1915), até duas tarefas de fumo, aparecendo nesse ano o primeiro homem a armazenar o produto: José Bernardino compra a safra de alguns plantadores.

Muitos anos passaram cultivando fumo nos baixios e com métodos ainda primitivos, pois só no começo da década de 20 é que a cultura do fumo passaria a se desenvolver com mais intensidade, quando o filho do pioneiro Lino de Paula Magalhães, sentindo necessidade de aumentar o plantio, quebrou o tabu: fez a semeia no curral e daí mudou para a chã — terrenos mais altos – onde plantou uma tarefa e meia de fumo, usando um pouco de estrume de gado em cada planta, sendo este o terceiro estágio.

Arapiraca, em 1924, já emancipada politicamente, apresenta notável desenvolvimento; a produção do fumo do município já abastece (em tropas de burros), as cidades circunvizinhas de Penedo, Igreja Nova, Limoeiro de Anadia, Quebrangulo, Viçosa, Palmeira dos Índios. É nesse época que os irmãos Né de Paula Magalhães e Deca Magalhães (por informação de Laudelino Barbosa que vira em uma de suas viagens), fazem inovações na fumicultura, adaptando nova técnica na preparação do fumo em rolo, antes enrolado no pé de um banco. Introduzem utensílios de madeira, como: macaca, moleque, banco, até então desconhecidos na região; também a secagem das folhas que até essa época era feita à sombra dos cajueiros, passou a ser em sequeiros; tudo isso contribuiu para a evolução da cultura fumageira, eliminando um sistema por demais rudimentar e antiprodutivo, implantando métodos que ainda hoje são empregados pelos fumicultores de Arapiraca.

Em 1928, o fumo em rolo era vendido pela primeira vez, para fora do Estado, ao Sr. José Tomáz de Caruaru-PE. Em 1930, José Pedro Proteciano (apesar de assustado com a Revolução e com os cangaceiros), já carrega em tropas de burros para Águas Belas-PE. Nesse ano, Lino de Paula Magalhães aumenta a área de cultivo para dez tarefas, tornando-se o maior produtor do município de Arapiraca. Em 1934, falece o pioneiro Francisco Magalhães, mas os herdeiros assumem o comando e a esta altura, além dos plantadores já citados, plantam também Agapito Magalhães, Gregório Magalhães, Domingos Magalhães, Luiz Magalhães, Tibúrcio Magalhães, Domingos Lúcio da Silva, Rosendo Lima, Né Rosendo, Pedro Alexandre, José Lúcio da Silva, Manoel Leão, Rosendo Gama, João Nunes, Lino Barbosa, Manoel Lúcio Correia, Francisco Lúcio, Domingos Terto, Aprígio Jacinto, José Emídio, Gervásio Oliveira, José Honório, Pedro Romualdo, José Tertuliano, Domingos Honório, Antônio Leão, Domingos Romualdo, Lúcio José da Silva, Manoel Lúcio da Silva, Manoel Pereira Santos, João Lúcio da Silva, Antônio Ventura, Né Angelo, Izidro Leão, João Ventura, José Macário, Manoel Clarindo, José Ventura, André Leão, foram os principais plantadores de fumo desta fase, havendo quem plantasse até 20 tarefas.

Em abril de 1938, os cangaceiros passaram próximo a Arapiraca e Lampeão aprisionou Lino de Paula no sítio Fernandes, mas o fazendeiro empreendeu fuga espetacular livrando-se do bandoleiro. No ano seguinte, tem início a 2a Guerra Mundial, todavia esses fatos não arrefeceram o entusiasmo dos fumicultores que continuaram evoluindo a passos largos.

Manoel (Né), de Paula Magalhães se desloca para o Estado da Paraíba com sua família e seus primos José Leão no ano de 1934.

Né Cavalcante, Laudelino Leite e Anatólio Leite ( que em, 1945, inventou o carro usado na viração do fumo), quando seriam os pioneiros no cultivo de fumo na região de Araçá e Sapé.

Apesar do progresso registrado nessa época, a produção do município era ainda limitada e os compradores de toda produção do fumo em rolo eram José Tomáz, Manoel Targino, Miguel Dudu, José Medeiros, Dedi, Macário, Pedro Lau, os irmãos Vaqueiro, José Carvalho, Dóia, Arnô, Francisco Carvalho, Cecílio, Antônio Paulino, Pedro Pirraia, Augusto Paulino, Antônio Carvalho, etc. Surge, em 1945, pela primeira vez, o comércio de folhas: José Lúcio da Silva e Lino de Paula Magalhães se estabelecem com armazéns para compra de folhas. Surge também a primeira fábrica de charutos por intermédio de José Lúcio de Melo a “Fábrica de Charutos Leda”. No ano seguinte, aumenta o comércio de folhas com a presença de Joel Esteves, o primeiro corretor baiano que se instalou em Arapiraca no pós-guerra, comprando folhas para várias firmas da Bahia, como Mário Cravo, Suerdyk, João Martins Mamona. Daí por diante, surgiram outros corretores como Francisco Machado, Pedro Figueredo, Valdomiro Barbosa. Em 1949, seria fundado por José Lúcio de Meio o Clube dos Fumicultores de Arapiraca.

Instala-se em Arapiraca a primeira firma internacional,(1950), a Exportadora Garrido dirigida por Galeno. A partir daí, o desenvolvimento da cultura do fumo torna-se impressionante; mais da metade da população já planta fumo e mais uma vez modificou-se o sistema: Lino de Paula Magalhães, por sugestão do Dr. Francisco Oiticica, faz algumas experiências e substitui o adubo orgânico (estrume), por adubo químico (tortas, salitre, etc.), sendo esse o quarto e último estágio. Arapiraca, a essa altura, já conta com créditos de várias agências bancárias e com uma cooperativa criada por Lourenço de Almeida, que a conduziu com sacrifício por muitos anos, tentando dar alguma assistência aos fumicultores. Infelizmente essa cooperativa nunca atingiu o seu objetivo (vender a terra, financiar, comprar o produto, etc), obrigando dezenas de famílias a procurar a Cooperativa 13 em Lagarto-Sergipe, que tem procurado ajudar o pequeno produtor.

Esse período caracteriza-se por uma verdadeira corrida de firmas internacionais em busca de folhas; instalam-se novas firmas aparecendo os primeiros gringos que se hospedavam no Hotel Lopes: Exportadora Bukovitz Ltda, Fraga & Sobel, Tabacalera do Brasil, C. Pimentel, Carleoni, Souza Cruz, cujo técnico Mr. James Reed, na época, insistiu para que os fumicultores da região plantassem o fumo tipo amarelinho, que produzia uma folha de qualidade especial; infelizmente todo esforço seria em vão,pois, essa espécie não servia para o fumo em rolo e assim seria mais vantagem para os fumicultores plantar de um tipo que desse para as duas coisas simultaneamente: para folha e rolo. E, assim, continuaram plantando as espécies mais comuns: rodoleiro, língua de vaca, rapé, orelha de burro, folhiço, verdão e outros. Logo após chegariam Amerino Portugal e Mangerroux, foram estas as primeiras firmas internacionais. Terminada a década de 50, aparece outra inovação importante: Edvaldo Nobre Magalhães enrola o fumo fino, que se adaptaria melhor aos consumidores do Sul — São Paulo, Paraná, porém, com uma mão de obra mais dispendiosa, pois, o rolo é formado com quatro pernas ou pavios; esse tipo de fumo é produzido apenas por uma minoria, dada as dificuldades técnicas. O fumo fino foi introduzido no comércio de São Paulo por intermédio do comerciante Antônio Pinto que comprou a safra do Sr. João Lopes (em, 1962) , e foi lançado em Minas por José de Souza Guedes que vendeu a Lafaiete Pinto Mendes em Itanhandú.

A década de 60, surge como um período dos mais florescentes e muita gente dos mais variados ramos, fascinada pelos bons lucros se infiltrou no comércio de fumo sendo bem-sucedida. Conseguiram essas pessoas verdadeiras fortunas, ora armazenando o produto, ora comerciando fertilizantes e outros, industrializando o fumo em rolo, como Valdomiro Barbosa, Francisco Pereira, Deca Moço, Norberto Severino, Eduardo Alves da Silva, Aurelino Ferreira Barbosa, José Alexandre, Severino Araújo Silva, Mário Lima e outros.

Essa fase foi realmente das mais promissoras; a cultura do fumo passou a ocupar toda a área do município de Arapiraca e começou a penetrar nos municípios circunvizinhos: Limoeiro de Anadia, Feira Grande, Junqueiro, Coité do Nóia, Taquarana, São Sebastião, Campo Grande, Girau do Ponciano, Igací, que foram atraídos pelos bons rendimentos do chamado ouro preto. Atualmente, a região de Arapiraca já se encontra carente de vegetação. O clima já começa a mudar e o desequilíbrio ecológico é patente; a precipitação de chuvas que outrora ocorria regularmente, hoje já não ocorre e como consequência as safras, às vezes, são prejudicadas; mesmo assim, o município de Arapiraca ainda continua sendo um dos maiores parques fumageiros da América Latina e milhares de toneladas de folhas são exportadas para o exterior, tendo como principal produtor-exportador Eloísio Barbosa Lopes, com a média de mil e trezentas tarefas anuais, isto sem contar com o fumo em rolo que abastece quase todo o Nordeste e parte do Sul do Brasil.

Grande quantidade de fumo ainda é industrializada .em firmas de Arapiraca, tais como: Fumo Rei do Nordeste, Fumo Extra Forte, Fumo Du-Melhor, Fumo Super-Bom, Fumo Jangadeiro, Fumo Jóia, Fumo Sempre Forte, Fumo Império, Fumo Extra Bom, etc. (indústrias de fumo picado e condicionado em embalagens plásticas) Conforme dados estatísticos do I.B.G.E., a população do município de Arapiraca nas últimas décadas era a seguinte: 1940-25.514 habitantes 1950- 37.073 1960-46.715 1970- 94.287 1978- (estimativa) 140. 000

Possuindo uma área de 614 Km2, é Arapiraca a cidade líder no Estado de Alagoas e a que mais cresce no Nordeste, construindo (oito) casas por dia.

Apesar do progresso observado em Arapiraca e da evolução tecnológica nesses últimos anos, a produção do fumo em rolo ainda não tem um mercado certo não havendo, portanto, um escoamento para toda a produção; também ainda continua com os mesmos métodos introduzidos pelos pioneiros na década de 20:semeia, muda, plantação, varais, sequeiros, mão de obra para fazer o rolo; não conseguindo sequer debelar uma praga conhecida por “Meia” (espécie de lodo ou mofo), que destrói todos os anos as sementeiras, ocasionando sérios prejuízos aos plantadores; as inovações foram restritas: a permuta do estrume pelo adubo químico em 1953, o aparecimento do fumo em quatro pernas, em 1962, a introdução da máquina no preparo da terra no início da década de 70, através de Eloísio Barbosa Lopes e alguma modificação na secagem de folhas. Excetuando isto, 70% da colheita ainda continua sendo manual, o que onera excessivamente o produto, obrigando alguns, a partir de 1970, a investir em outras áreas como: pecuária, loteamento de imóveis, cultivo de mandioca, plantação de abacaxi, cerâmica (João Lúcio da Silva, José Maia, José Leão, Eloísio Barbosa Lopes e outros), que evitaram a monocultura.

Ocorre, também na década de 70, outra profunda modificação: além da meiação, acaba-se pouco a pouco o sistema de moradores implantado ainda na década de 30; ao invés de dar a morada no terreno, o proprietário prefere pagar ao trabalhador por produção, mesmo transportando-o diariamente para o local da colheita, livrando-se dessa maneira das obrigações sindicais terminada a colheita, logicamente, termina o vínculo com o trabalhador que geralmente se desloca para a região dos canaviais. As relações entre patrão e trabalhador, como acontece na agricultura, nunca chegaram a bom termo, apesar da presença do órgão trabalhista. Se por um lado o patrão nega-se a assinar a carteira do trabalhador ou se esquiva em mantê-lo durante o verão, o trabalhador por seu turno, uma vez com a carteira assinada, julga-se com direito a abusar, não trabalhar, prejudicar a colheita, etc. E quando procura o Sindicato Rural este o defende, porém prejudica-o, pois ele não consegue mais trabalho em outras fazendas, ninguém o quer. E um problema insolúvel até agora e acreditamos ser muito difícil se encontrar um denominador comum, seria no caso, mudar uma mentalidade secular.

CANTIGAS DAS DESTALADEIRAS

Com a expansão da cultura do fumo em Arapiraca, a partir da década de 20, cresceu também a necessidade de mão de obra e assim convergiram para Arapiraca trabalhadores de várias regiões do Nordeste, que foram trazendo em suas bagagens, costumes, folguedos, crendices. seitas, cantos, os quais foram se adaptando à primitiva cultura já existente e assim se concentrou um sem número de cantigas que há mais de meio século são cantadas na épocas da colheita de fumo pelas mulheres que retiram os talos das folhas de fumo, as conhecidas destaladeiras de fumo.

Estando o município de Arapiraca situado no Agreste Alagoano, entre a Zona da Mata e a do Sertão, essas regiões muito contribuíram e exerceram grande influência na formação dessas cantigas utilizadas na colheita. Na Mata, temos o coco, a cantiga de roda, o reizado; no Sertão, o aboio, a toada, a cantoria de viola, a cantiga de eito. Todas essas manifestações folclóricas influíram decisivamente na formação das cantigas de salão de fumo que as mulheres entoam, sentadas no chão, afastando o sono enquanto destalam as folhas e que, com o passar do tempo, foram adquirindo características próprias, constituindo uma manifestação do povo da região fumageira.

As primeiras cantigas que apareceram em Arapiraca foram dedicadas aos plantadores de fumo da época:

“ Seu Né “Seu Né de Paula Seu Né Se parece um raio de sol Só brinca hoje Quando vem chegando Na fazenda se quis é” Na fazenda Seridó”

“ Seu Né de Paula Com todas trabaiadeira Seu Toinho Cavalcante Enrola fumo na carreira” “ Fazenda Pernambucana Fazenda que tem valô Ela paga e não engana Só ganha quem trabaiô”

Essas últimas estrofes fazem referências às Fazendas e aos primeiros enroladores que atuavam nos salões de fumo, junto às destaladeiras: Toinho Cavalcante, Juca Magalhães, Rubens Pedro, Zezé, Sulino, José Macário, José Vermelho e outros.

Entoando essas cantigas, muitas cantadeiras marcaram época nos salões onde cantavam, tirando os versos: Maria de Lima Araújo, Rosa Leite, Detinha, no bairro de Cacimbas. Maria Julieta, Maria Neuza, Amália, Luzia, Rosa Macário, no bairro de Baixa Grande; Joana, Regina, Nina Vital, no Alto do Cruzeiro; Júlia, Rosália, Maria de Lourdes, Angelita, no sítio Mangabeira; Alice Alves, na Lagoa da Pedra; Lourdes Zacarias, Zeza, na Fazenda Pernambucana. Essas cantigas em formas de trovas, (rimas ABCB), sem acompanhamentos musicais, são entoadas em várias vozes, formando um coro harmonioso no estribilho (refrão), com uma só voz no improviso dos versos geralmente tirados pelas líderes do salão. Se o refrão da cantiga agrada em cheio, elas cantam até durante horas; mas, normalmente, as destaladeiras mudam de cantiga para não esfriar o entusiasmo:

“ Essa cantiga já tá véia Tá boa de remendá Com taquinho de pano novo Uma agúia e um dedá” “ Eu não como ceará Nem também carne de péia Arrenove essa cantiga Que já tá ficando véia”

E assim elas estimulam cada vez mais, mantêm o salão em permanente alegria, evitam o tédio ou o sono, usando sátiras, ironias, chistes, gracejos espirituosos que são mais das vezes interrompidos por uma algazarra geral:

“ Eu não quero me casá Com rapaz pequenininho Prá botar ele no braço Tururú meu macaquinho”

“Meu amó era um cachorro De cachorro virou gente Mas como não tem palavra

“ Menino casa comigo Que nós não morre de fome Minha mãe tem uma porca véla Quando ela matá nós come”

“Eu agora vou casá Se eu casá eu vivo bem Se eu ficá no caritó”

E, principalmente, versos românticos impregnados de lirismo, reminiscências puras do romantismo do século passado que o sertão nordestino conservou talvez como nenhuma outra região brasileira e que são geralmente dedicados pelas destaladeiras aos rapazes solteiros — bem- amados — alguns de rara beleza, verdadeiros poemas conforme podemos observar:

“ Eu tranquei na mão um riso De tua boca mimosa Quando eu fui abrir a mão Tava toda cor de rosa”

“Essa noite choveu ouro Prata fina orvaiou Eu não aonde tava Meu sentido aonde andou” “ Já fui cravo, já fui rosa Já fui de teu coração Hoje sou a vassourinha Com que vais varrê o chão”

“As estrela do céu corre Eu também quero corrê Elas corre atrás da lua Eu atrás de bem querê”

Existe ainda os versos que as destaladeiras empregam para chamar alguém, fazer interrupções, pedidos, insinuações, junto aos proprietários como observamos nessas estrofes:

“ Patrão eu quero bebê Na vida eu tenho prazê Se eu não bebê Eu vou-me imbora”

“Feche a porta e abra a porta Sem bulir na fechadura Se eu fosse o dono do fumo Oferecia rapadura” “ Eu plantei um pé de cana Nasceu um pé de ananá Seu eu fosse o dono do fumo Oferecia guaraná”

“Quem não pode com a formiga Não assanha o formigueiro Quem não pode dar o vinho Não se mete a ser meeiro”

Muito usados também eram os chamados versos de maltratar que as destaladeiras cantam quando querem xingar alguém que não mais desejam:

“ No tempo que eu te amava Rompia matas de espinho Hoje eu pago com dinheiro Para não vê o teu focinho”

“Eu plantei um pé de cravo Nasceu um pé de jasmin Num namoro rapaz branco Do cabelo de tuim” “ Quem quisé comprar eu vendo Um amor que já foi meu Uma banda tá inteira E outra a barata roeu”

“Lá do céu caiu um cravo Choviscadinho de amarelo Menino interessa a mim Mas amor eu não te quero”

Nas cantigas das destaladeiras, observamos os mais variados temas: do lírico ao sarcástico, do satírico ao irreverente, do espirituoso ao chamado verso de roedeira, que também é conhecido como paixão recolhida. Como acontece com várias manifestações folclóricas, as destaladeiras também gostam de render homenagens, fazer louvações a lugares, a proprietários, algum visitante, em versos improvisados nos salões de fumo, conforme observamos a seguir:

“ Arapiraca é terra boa Todo mundo diz que é Terra de mulé bonita Viva Manoé André”

“Mandei carta p’ro Recife Biête p’ra Maceió Tô amando um moreninho Da parte que nasce o só” “ Se o canário bem subesse Quanto custa uma saudade Não cantava em minha vista As quatro hora da tarde”

“O passarinho avoou Se sentou na verde rama Mando-te dizer ingrato De longe também se ama” Viva o cravo, viva a rosa Viva com toda roseira Viva o dono do fumo Com todas trabaiadeira”

“Oh que estrela tão bonita Do lado de Muricí Só comparo aquela estrela Com uma pessoa d’aqui” “ Vai-te carta que te mando Por esse mundo sem fim Perguntá a meu benzinho Se ainda lembra de mim”

“Quem me dera eu vê hoje Quem tá em meu pensamento Meu coração toma um susto Meu corpo toma um alento”

Um fato curioso, no entanto, nos chama a atenção nessa pesquisa: não conseguimos registrar um só verso contendo reclamações ou desprezo pelo trabalho, não há lamentações nas cantigas da colheita de fumo, daí concluímos que existe um grande contentamento no ambiente onde elas executam a tarefa:

“ O galo cantou, cantou, moreninha O dia manheceu, manheceu Hoje aqui neste salão, moreninha Quem canta mió é eu” “ O cantá da meia noite É um cantá incelente Acorda quem tá dormindo Alegra quem tá doente”

Os temas empregados no apogeu dessas cantigas, nas décadas de 40 e 50, retratavam o meio ecológico da época : árvores, frutas, flores, pássaros, açudes, que ainda não tinham sido devastados pelo homem para dar lugar a cultura do fumo, conforme registramos:

“Quem namora moça gorda vai topá com satanáz quando ela sai na rua “ Moça que ama chofé ama cachorro também cachorro ainda tem rabo

“Bananeira tá de luto Descanso dos passarinhos As folhas de sentimento Quem me dera eu descansá Bem que disse a bananeira Nos teus braços um bucadinho” Quem amô tem tormento” “ Cravo não me chame rosa “A sucena me fez queixa Que o meu tempo já passou Que sua rama murchou Me chame laranja verde Eu também fiz queixa a ela Da gáia que não vingou” Que meu amô se acabou”

Nos últimos tempos, nota-se perfeitamente a presença de elementos urbanos, sinais, símbolos, da chamada sociedade de consumo, conforme observamos nas estrofes seguintes:

“As folhas da bananeira De manhã manhece queta Eu conheço meu benzinho Lá vai meu bujão de gáz” Quando vem de bicicreta” “Eu preguei o teu retrato Numa lata de manteiga Sem vergonha é rapaz branco E chofé nem rabo tem” Que namora com uma nêga”

Também convém ressaltar que muitas dessas cantigas de salão de fumo já foram publicadas em jornais, plagiadas e até gravadas com modificação da letra, da música e do ritmo. Mas, essas cantigas são anônimas, produtos da invenção do povo simples da roça.

E assim, as mulheres trabalham melhor durante horas a fio na destalagem e seleção das folhas para formar o rolo, em salas, salões ou armazéns utilizados para a tarefa. Essas “cantigas de salão de fumo”, como são conhecidas em Arapiraca, sempre constituíram uma grande atração na época da colheita, quando uma intensa alegria tomava conta dos salões e ouvia-se a longa distância a cantilena das “destaladeiras”. É pena que essas cantigas, autênticas manifestações, tão apreciadas pelo povo, não continuem com a mesma freqüência do passado, vítimas que foram da própria evolução tecnológica implantada na região nos últimos anos da década de 50, quando em Arapiraca se instalaram importantes firmas internacionais que passaram a explorar o comércio de folhas de fumo, proibindo as “destaladeiras” de cantar no trabalho de seleção das folhas, alegando que, além de fazerem barulho, diminuíam a produção diária dos armazéns. Hoje, elas trabalham caladas nos armazéns, sem conversar ou fazer qualquer ruído.

As cantigas tiveram o seu período áureo nas décadas de 40 e 50; até o ano de 1959, as “destaladeiras” cantavam muito nos salões de fumo em pleno centro da cidade e até jovens da elite de Arapiraca misturavam-se com as mulheres na destalagem do fumo e se deleitavam, cantando versos de amor o dia inteiro, numa alegria contagiante e que atingia o seu ponto máximo no chamado derradeiro dia de fumo, quando era encerrada a destalação da safra e o patrão oferecia uma buchada de um carneiro gordo, bem como um “forró” acompanhado ao som de harmônica e muita bebida para comemorar o encerramento da colheita. Foram dias memoráveis os derradeiros dias de fumo nos salões de Né de Paula Magalhães, na Fazenda Seridó, Lino de Paula Magalhães, na Fazenda Ouro Preto, Luis Pereira Lima, na Fazenda Pernambucana, João Lopes, José Honorato, José Imidio, Né Angelo, João Ventura, Pedro Alexandre, Domingos Honório, Gervásio Oliveira que oferecia também um pagode. Eram verdadeiras festas, com os salões enfeitados e as “destaladeiras” bem inspiradas com o vinho, cantando os versos de despedida:

“ Rapaziada adeus, adeus “Adeus amante querido Adeus, adeus que já me vou Adeus porta de meus pais Eu levo pena e saudade Só venho aqui para o ano Dos moreno que ficou” Por hoje não canto mais” “ Adeus cajueiro “Despedida meu bem despedida Adeus cajuí A nossa função se acabou Adeus que eu vou-me imbora Vamos deixá para o ano Para o ano eu volto aqui” Se nós todos vivo for”

À noite, começava o forró com o salão repleto de trabalhadeiras, a poeira cobrindo ía até ao amanhecer do outro dia, ao som dos pés de bode de João Chico, Odilon Zumba, Lau Catenga, João Pernambucano. Atualmente, apenas em alguns pontos da zona rural da região fumageira, as mulheres ainda cantam na destalação das folhas de fumo, porém, os proprietários quase não realizam festas comemorando o final da safra; também observa-se claramente que o processo tecnológico já se faz presente: muitos fumicultores, utilizando automóveis, já entregam as folhas de fumo à domicílio e as recolhem no fim do dia; logicamente as mulheres não se reúnem em salões para cantar. Também já penetraram até nos sítios o rádio, o gravador, a televisão que irão fatalmente eliminar uma das últimas formas de canto de trabalho que ainda existe no Brasil, impondo uma inevitável transformação na cultura do povo.

Hoje, com essas anotações, estamos tentando fazer um modesto registro dessas cantigas da colheita de fumo de Arapiraca, para que elas não desapareçam com o passar do tempo. Esta pesquisa, entretanto, contém apenas uma amostragem com algumas cantigas e os versos tirados pelas cantadeiras dos salões da “Terra do Fumo”, a progressista Arapiraca.

Extraído – com autorização do autor – do Livro A Cantiga da Destaladeira de Fumo de Arapiraca – do historiador Zezito Guedes

 

 

TEXTO INTEGRAL (veja abaixo o texto contido nas abas acima)
 

ORIGENS

Segundo conta uma tradição do povo, remanescente do próprio fundador, a palavra Arapiraca tem origens indígenas e, por analogia, significa: “ramo que arara visita”. Entretanto, à luz da ciência, trata-se de uma árvore da família das Leguminosas Mimosáceas – Piptadênia (Piteodolobim), uma espécie de angico branco muito comum no Agreste e no Sertão e que o povo, a sua maneira, denomina de Arapiraca.

Então, foi nessa Arapiraca, a árvore frondosa e acolhedora, situada à margem direita do Riacho Seco, onde o fundador Manoel André Correia dos Santos acampou no primeiro dia, quando procurava uma fonte de água doce onde pudesse se instalar para tomar posse da propriedade Alto do Espigão do Simão de Cangandu adquirida em 1848, por seu sogro Capitão Amaro da Silva Valente Macedo, que residia no então Povoado Cacimbinhas, município de Palmeira dos Índios.

Quando realizava o primeiro desmatamento na área, auxiliado por trabalhadores, num dia de muito sol, Manoel André escolheu a árvore sombria, onde pudesse descansar ao meio-dia.

Encostou aí os instrumentos de trabalho e cuidou de preparar a “bóia”, quando então usou estas palavras: ” Esta Arapiraca, por enquanto, é a minha casa”.

Este seria o primeiro ponto de referência, o marco que, através do tempo, passaria à história.

Contam ainda os ramos ascendentes que, em seguida, Manoel André construiu, à sombra da árvore, uma cabana de madeira coberta com cascas de angico, onde passou os primeiros dias, enquanto fazia surgir a primeira casa, numa distância de cerca de cem metros, quando se instalaria com a família que viera de Cacimbinhas, no mesmo ano de 1848.

Em pouco tempo, formou-se um próspero sítio e, em 1865, quando Manoel André construiu uma capela, já havia um arruado de casas de taipa de duas águas, formando um quadro.

O povoamento de Arapiraca foi ocorrendo de forma sistemática, ou seja, tal qual as colonizações portuguesas tradicionais, o que resultou numa imensa árvore genealógica.

Assim, em 1848, o Capitão Amaro da Silva Valente de Macedo mandou o genro, Manoel André Correia dos Santos, comprar e ocupar a terra Alto do Espigão do Simão do Cangandu para localizar com a família, tendo em vista um sério incidente ocorrido entre Manoel André e o cunhado José Ferreira de Macedo.

Dez anos depois,(1858), o Capitão Amaro envia outro genro de nome José Veríssimo dos Santos, que ocupou a parte Sul da propriedade denominada Cacimbas. Em 1859, também seu cunhado Manoel Cupertino de Albuquerque (casado com sua irmã), que se instalou ao lado, no local denominado Baixão.

No final de 1860, Terezinha Nunes Magalhães (mãe de José Veríssimo), fica viúva de José Nunes Pereira de Magalhães, em Campos de Anadia e chega em Arapiraca em companhia dos filhos Domingos Nunes Barbosa, que fundou Canafístula, Estevão Nunes Barbosa, Manoel Nunes Barbosa (que fugiram da convocação da Guerra do Paraguai em Campos de Anadia e se refugiaram à margem de uma lagoa cercada de craíbas, na herança de José Pereira, seu irmão ,e de Manoel Ferreira de Macedo, genro e filho do Cel. Amaro da Silva Valente, onde surgiu a povoação Craíbas dos Nunes.

A partir de 1861, chegaram José Ferreira de Macedo, Manoel Ferreira de Macedo (cunhados de Manoel André), e o sobrinho Pedro Cavalcante de Albuquerque, filho de Joana da Silva Valente e Manoel Cavalcante de Albuquerque; os primeiros se instalaram na Serra dos Ferreira e Pedro Cavalcante nos Caititus. Em seguida, chegaram os irmãos de Manoel André: Manoel Eugênio, André Correia e José Sotero, que se estabeleceram no Sítio Mangabeira.

Estes foram os primeiros povoadores, cujas famílias cresceram e multiplicaram-se, entrelaçando-se (não havia gente de fora), e formando esta imensa árvore genealógica através do tempo. Todavia, o que dificulta atualmente a identificação das famílias é a não conservação do sobrenome dos ramos ascendentes.

Assim, alguns remanescentes de Manoel André como os filhos de Maria Rosa Correia dos Santos e Lúcio Roberto da Silva passaram a usar o sobrenome Lúcio; os filhos de José Veríssimo dos Santos foram assim registrados: Manoel Antônio Pereira de Magalhães, Antônio Leite da Silva, Esperidião Rodrigues da Silva, José Nunes de Magalhães, Joana Umbelina de Magalhães, entre outros.

Do tronco de Manoel Cupertino de Albuquerque, foram registrados os filhos com estes sobrenomes: Manoel Nunes de Albuquerque, Inocêncio Nunes de Albuquerque, Antônia Maria de Jesus e outros. Os filhos de Bernardino José dos Santos foram assim registrados: Pedro Leão da Silva, Antônio Raimundo dos Santos, João Francisco Aureliano, Maria Antônia dos Santos, Josefa Maria da Conceição, Euzébio José dos Santos e outros.

O tronco de Manoel André tem, pois, os seguintes ramos: Correia, Lúcio, Inácio, Vicente, Fausto, Umbelina, Belarmino, Amorim, Oliveira e outros. Segundo conta a tradição, o sobrenome Lima surgiu com a presença de Felipe José Santiago, que teria vindo de Água de Menino, Junqueiro-AL.

Já o tronco de José Veríssimo dos Santos possui os ramos: Magalhães, Rodrigues, Leite, Barbosa, Nunes, Pereira, Ventura, Honório, Oliveira e outros. Os descendentes de João de Deus (casado com uma tia de Manoel André), mesclaram-se com as famílias já referidas e tomaram os mais variados sobrenomes. Quanto aos irmãos José Ferreira de Macedo, Manoel Ferreira de Macedo, Maurício Pereira de Albuquerque e Joana Leopoldina da Silva Valente (casada com Manoel Cavalcante de Albuquerque), seus descendentes têm os sobrenomes: Macedo, Albuquerque, Nunes, Ferreira, Alexandre, Cavalcante, Oliveira, Gama, Pereira e outros.

Conclusão, eram irmãos: José Ferreira de Macedo, Maurício Pereira de Albuquerque, Manoel Ferreira de Albuquerque e as esposas de Manoel André, José Veríssimo Pereira, Joaquim Pereira e Manoel Cavalcante de Albuquerque que eram filhas do Capitão Amaro da Silva Valente.

O POVOADO

Edificado à margem direita do Riacho Seco, a princípio Arapiraca se estendeu por uma faixa de planalto coberta por densa vegetação típica do agreste, onde se destacavam: Pau d’Arco, Cedro, Angico, Massaranduba, Aroeira, Pau Viola, Quixabeira, Umburana, Jurema, Braúna, Pau Ferro, Canafístula, Cajarana e, principalmente, a árvore símbolo – Arapiraca.

Contando com uma privilegiada localização e impulsionada pela extraordinária capacidade de trabalho de seu povo, Arapiraca estaria fadada a cumprir uma florescente trajetória através dos anos.

No início deste século, Arapiraca ainda era edificada com casas de taipa, modelo duas águas com biqueira, existindo duas construções em alvenaria: uma, no Quadro – atual comércio, construída pelo Capitão Chico Pedro e, outra, na Rua Nova – atual Praça Deputado Marques da Silva, um sobrado construído por Antônio Apolinário e que depois serviu de Paço Municipal.

Até então, havia ainda em Arapiraca vestígios dos primeiros tempos da fundação. Existiam, em pleno centro urbano, muitas árvores nativas em cujas sombras os feirantes colocavam carros de boi, amarravam animais e a meninada da época brincava diariamente. Na rua Nova, existia um viçoso Pau d’Arco, próximo à Igreja de São Sebastião e um frutífero Jenipapeiro em frente à casa de Tibúrcio Valeriano. Conta-se que, certa vez, o pe. João Maria, de passagem por Arapiraca, observando o verde destas árvores, afirmara que em seu subsolo, não muito distante, com certeza passaria algum lençol d’água, daí o vigor daquelas plantas tão verdes. E sugeriu, na ocasião, que se alguém cavasse um poço, a poucos metros de profundidade, encontraria água abundante. Aproveitando a sugestão, José Magalhães cavou uma cacimba que, durante décadas, forneceu água gratuita à população daquela época.

No comércio, existiam diversos umbuzeiros ao longo do quadro e uma velha tamarineira, em frente à loja de José Lúcio da Silva, em cuja sombra nasceu a feira e onde os trabalhadores Vicente Flor, João Higino, Belo, Joca da Serra, Pedro Alexandre, André Marchante e outros penduravam a carne para vender.

Havia ainda um lendário coqueiro, situado em frente à igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho que, segundo informações do Sr. Toinho Cavalcante, vinha dos tempos da fundação de Arapiraca e era considerado como uma relíquia pelos descendentes de Manoel André.

Onde foi aberta a Rua do Cedro – atual Av. Rio Branco, havia uma série dessas árvores, as quais, tempos depois, foram destruídas. Finalmente, abaixo do comércio, antes da atual ponte sobre o riacho, estava situada a frondosa e verdejante Arapiraca, que serviu de sombra acolhedora ao primeiro habitante e assistiu, como testemunha muda, ao nascimento de uma cidade com o seu próprio nome. Infelizmente, o marco foi destruído para dar passagem ao progresso, talvez…

A CIDADE

Quando Arapiraca foi elevada à condição de cidade, em 1924, contava, apenas, com cinco logradouros públicos incompletos e alguns acessos. assim, existia o Quadro – atual praça Manoel André, a rua Nova – hoje Pça. dep. Marques da Silva, a rua Pinga Fogo – atual rua Aníbal Lima, início da rua Boca da Caixa e que, depois, passou a ser denominada de rua 15 de Novembro e início da rua do Cedro – atual Av. Rio Branco.

Após a emancipação, aproveitando um largo que saía da extremidade da rua Nova em direção à localidade de Cacimbas, o prefeito eleito, Major Esperidião Rodrigues da Silva, construiu a rua do Cedro (cedendo uma faixa de terra de sua propriedade), que depois passou a ser chamada Av. Rio Branco. Além desses logradouros, existia ainda o Beco dos Urubus, que saía do centro do Quadro em direção à lagoa, onde o comerciante Firmino Leite estendia couros para secar ao sol, atual saída para a ponte do Alto do Cruzeiro. Afora isso, existia um largo que partia da rua Nova em direção ao cemitério (onde está situada a Concatedral de Nossa Senhora do Bom Conselho), onde por muito tempo, existiu um matadouro – atual Largo D. Fernando Gomes.

Um panorama bucólico dominava a cidade naqueles tempos idos. A presença de animais pastando em plena rua era uma constante e dezenas de carros de boi trafegavam diariamente, escutando-se o contínuo ranger das rodas nas tardes ociosas do verão. À noite, os jovens contavam estórias sentados nas calçadas e os mais conservadores rezavam ofícios e novenas na igreja. A vida era aquela rotina e até o tempo demorava a passar, pois o movimento era pequeno e as horas eram ociosas. Enfim, a cidade parece até que vivia parada no tempo. O progresso ainda estava longe e o casario de formas singelas dava ainda a impressão de um povoado.

A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA

Um dos capítulos mais importantes da história de Arapiraca e que merece registro é a luta empreendida pelo líder da emancipação Major Esperidião Rodrigues da Silva, a partir de 1918, quando assumiu o comando da campanha em prol da emancipação política do distrito de Arapiraca.

Foram anos de preocupações e sacrifícios, enfrentados pacientemente pelo líder da campanha, realizando reuniões e preparando relatórios sobre a área do povoado, número de imóveis, de habitantes, de propriedades rurais, atividades comerciais, produção agrícola, enfim, toda economia local, para, de posse desses subsídios, provar que o distrito de Arapiraca poderia sobreviver emancipado de Limoeiro de Anadia.

Convém frisar que naquela época ainda não existia automóvel no interior e as exaustivas viagens à capital do estado eram realizadas a cavalo e o Major Esperidião Rodrigues tinha que inevitavelmente passar por Limoeiro de Anadia, cujas lideranças políticas envidavam esforços, tentando a todo custo obstruir o trabalho e a tramitação do processo de emancipação do distrito de Arapiraca.

Então, as hostilidades eram constantes e quando o nosso libertador passava humildemente por Limoeiro de Anadia, em demanda da capital Maceió, ouvia impropérios e achincalhes dirigidos à sua pessoa, por causa de sua luta em prol da emancipação de Arapiraca, numa fase em que imperava a oligarquia da família Barbosa, que tinha livre acesso aos bastidores do Palácio dos Martírios, como políticos de situação e bem prestigiados.

Homem abnegado, era uma verdadeira peregrinação que o Major Esperidião Rodrigues fazia há anos, frequentando secretarias, Assembleia Legislativa, Tribunal de Justiça, Palácio do Governo e outros órgãos, onde o líder da campanha ficou muito conhecido e os funcionários e assessores, quando o avistavam ao longe comentavam entre si: “Lá vem o homem dos olhos azuis outra vez..”

O tempo foi passando até que, enfim, apareceu uma luz no fim do túnel e o panorama começa a clarear com a presença oportuna do Deputado Odilon Auto (natural de Pilar), que, acompanhando o sacrifício do Major Esperidião Rodrigues, resolveu apoiar e defender a causa da Emancipação Política do então distrito, reivindicada pelo laborioso povo de Arapiraca.

Agora, de posse da documentação necessária, o Deputado Odilon Auto se engaja na luta e passa a preparar o projeto para enfrentar a fase mais difícil: convencer a maioria dos deputados e votar pela aprovação do Projeto de Lei para posterior sanção pelo Governador dr. José Fernandes Lima.

Foi uma tarefa árdua enfrentada pelo Deputado Odilon Auto que, durante meses, se empenhou com toda capacidade de trabalho pela justa causa da emancipação do Distrito de Arapiraca, contrariando os interesses dos políticos de Limoeiro de Anadia, que não desejavam perder a renda mensal do seu mais importante distrito que era Arapiraca.

O líder Esperidião Rodrigues, impaciente com a burocracia da tramitação do processo, tomou uma atitude: viajaria a Maceió e só voltaria para Arapiraca após o resultado final – ou tudo ou nada. Foi com essa decisão que chegou à capital na primeira quinzena de abril e durante 40 dias permaneceu ao lado do Deputado Odilon Auto, acompanhando a tramitação do Projeto de Lei nº 1009, que, após vários debates e discussões acaloradas, foi finalmente aprovado pela Assembleia Legislativa e sancionada pelo Governador dr. José Fernandes Lima, no dia 30 de maio de 1924. Foi um relevante serviço prestado pelo Deputado Odilon Auto à causa da emancipação e uma grande vitória para o líder da campanha Major Esperidião Rodrigues da Silva, o grande idealista.

ESPERIDIÃO RODRIGUES

Nasce na Vila de Cacimbinhas em 16 de junho de 1858,Esperidião Rodrigues da Silva, filho de José Veríssimo Nunes dos Santos e Ana Maria da Silva Valente.

Neto materno do português Amaro da Silva Valente de Macedo e de Izabel Pereira da Rocha Pires. Em janeiro de 1859, seu pai resolve transferir-se para o povoado de Arapiraca, onde lá já residia seu cunhado Manoel André Correia dos Santos; chegando em Arapiraca, fixa residência na parte denominada de “Cacimbas”; nesta época, Esperidião tinha seis meses de vida.
Sua infância foi muita boa, brincava entre as árvores e pássaros e sonhava com uma cidade tranqüila e bem povoada. Seu pai, católico fervoroso, criou a família dentro dos padrões de honestidade, respeito e amor ao trabalho.

Casa-se Esperidião com 17 anos de idade, (1875),com sua prima Joana Belarmina de Macedo, casamento acertado por seus pais, como era de costume da época e ele não ia fugir à regra. Desta União, nasceram os filhos: André Rodrigues de Macedo, Serapião Rodrigues de Macedo, Domingos Rodrigues de Macedo, Lino Rodrigues de Macedo, Antônio Rodrigues de Macedo, Jonas Rodrigues de Macedo e Cecília Rodrigues de Macedo.

Esperidião tinha em seus planos montar uma casa de Comércio. Sempre que levava cargas de algodão para vender em Penedo, voltava com tecidos e outras mercadorias para montar sua loja. Estas idas e vindas de pessoas, a fim de comerciar ficou conhecida como “A rota do São Francisco”.

Esperidião, como homem de visão, viu a necessidade da proteção aos viajantes pelas estradas desertas, então sugeriu a criação de uma guarda policial. Sua ideia foi aceita. E esta guarda ficou sob o comando de João Magalhães, que impôs respeito e ordem.
Esperidião torna-se o 1º comerciante em 1880, e do Povoado de Arapiraca, em 1848, Esperidião criou a feira de Arapiraca, a fim de facilitar a vida dos moradores do povoado.

Esperidião foi eleito, Presidente do Conselho da Vila de Limoeiro em 1892. Neste mesmo ano, conseguiu do Governo a criação de uma escola para o povoado; como também a criação do Cartório do Registro Civil para casamento, nascimento, óbitos e uma agência dos correios.

Casa-se pela segunda vez com Balbina Farias de Melo, em 1897, desta união nasceram Amália Rodrigues da Silva, José Rodrigues da Silva, Genésio Rodrigues da Silva, Virgílio Rodrigues da Silva, Laura Rodrigues de Melo, Juvênio Rodrigues de Melo, Rosa Rodrigues de Melo, Gondiz Alves Rodrigues de Melo e Marieta Rodrigues de Melo.
Esperidião funda no Povoado de Arapiraca, (1908), uma Sociedade Musical denominada: “União Arapiraquense” cujos instrumentos musicais foram adquiridos em Paris (França).

O Governador Cel. Clodoaldo da Fonseca nomeia, em 1915, Esperidião à Intendente da Vila de Limoeiro de Anadia até 1918. Destacando-se como líder político da atualidade.

No fim de 1918, Esperidião, desgostoso com a política, vende suas propriedades, reúne os filhos e vai fixar residência no povoado da Igreja Nova, mas, depois de estabelecido no comércio, a sua saúde começa a preocupar, então ele resolve mudar-se para Lagoa Comprida, Povoado que fica às margens do Rio São Francisco.

Chega à Lagoa Comprida, em abril de 1924, seu sobrinho Domingos Lúcio da Silva, com uma missiva a qual pedia a presença de Esperidião para liderar os rumos da Emancipação do Povoado de Arapiraca da Vila de Limoeiro de Anadia.

Daí, Esperidião reuniu a família, participa a todos que Arapiraca precisa de seu empenho e que tudo fará para ver concretizado o sonho de todos arapiraquenses.

Neste mesmo mês, Esperidião volta a Arapiraca e segue para Maceió, a fim de manter contato com as autoridades do estado, para que o processo de emancipação tenha trâmite legal e possa ser votado pelos deputados. Foi muito longo o tempo de espera, mas Esperidião não desiste. Todos os dias estava no palácio falando com um e com outro, até que se encontra com o deputado Odilon Auto, que mantém uma conversa bem reservada e obtém do mesmo a aprovação de assinar a proposta apresentada. Mas não dependia só dos deputados, tinha que ter a autorização do Secretário da Fazenda, na pessoa do dr. Castro de Azevedo que se mantinha intransigente, achando o mesmo que havendo a separação de Arapiraca com Limoeiro esta seria prejudicada. Então Esperidião prometeu que com a emancipação de Arapiraca , Limoeiro continuaria economicamente forte.
Depois de falar novamente com o Governador, este por sua vez manda que ele entre em contato com o Secretário da Fazenda e ouve dele esta frase: “ Não prometo trabalhar pela emancipação de sua terra, mas prometo não criar dificuldades às suas pretensões”. Neste mesmo dia, subiu a plenário o processo e foi votado favorável.
Recebe Esperidião um telegrama oficial no dia 31 de maio de 1924, no qual relatava:

Cel. Esperidião Rodrigues da Silva
Arapiraca Limoeiro
Acabo sancionar Projeto Lei criando município de Arapiraca, com cuja população laboriosa, adiantada e progressista me congratulo por intermédio amigo, grande incansável paladino dessa conquista que representa ato de justiça aos poderes públicos e a um povo que se levanta por si próprio, que tem iniciativa e que progride.
Cordiais Saudações
Ass. Fernandes Lima- Governador do Estado

O jornalista Pedro da Costa Rego empossa a junta governativa de Arapiraca em, 30 de outubro de 1924.

Leitura do termo de posse pelo juiz dr. Medeiros da cidade de Palmeira dos Índios em, 07 de janeiro de 1925.

Esperidião é eleito prefeito da Vila Arapiraca,07 de janeiro de 1925, tendo como vice José Zeferino de Magalhães e governaram até oito de janeiro de 1928.

Esperidião é eleito pela 2ª vez prefeito de Arapiraca,(1930), tendo como vice Antônio Romualdo e governaram até 1932, quando rebentou a revolução. Daí por diante, os prefeitos eram nomeados pelos Interventores que recebiam uma lista contendo cinco nomes, era escolhidos o prefeito com seu respectivo vice.

Casa-se Esperidião, pela 3ª vez, com Maria Rodrigues no ano de 1936.

Falece na cidade de Arapiraca, aos 85 anos de idade, no dia três de julho de 1943, Esperidião Rodrigues da Silva, e é sepultado no cemitério local, após terminar a sua caminhada cívica, como cidadão brasileiro e arapiraquense, com a consciência tranqüila do dever cumprido.

A PRIMEIRA ADMINISTRAÇÃO

Com Arapiraca cidade, ocorreu a primeira eleição em janeiro de 1925, com um candidato único, cuja posse ocorreu no dia sete de janeiro do corrente, o prefeito eleito Major (guarda nacional), Esperidião Rodrigues da Silva, um homem íntegro, abnegado e consciente de suas responsabilidades, entregou-se de corpo e alma ao cargo eletivo outorgado pelo povo e como primeiro mandatário passou a nortear os destinos de sua terra natal e, apesar de não contar com uma Câmara de Vereadores para legislar, foi resolvendo tudo individualmente sem contar com nenhuma subvenção estadual e nem federal para a Administração.
Nos primeiros meses, foi realizado com os parcos recursos da arrecadação dos impostos do centro urbano: atividades comerciais, feira livre, imposto predial, matadouro. Tomando também a decisão de arrecadar impostos na zona rural, inclusive, das propriedades e dos animais bovinos e caprinos existentes. Só isentou de taxas os carros de boi porque transitavam carregando farinha, cereais, lenha e tijolos para as construções. E para aumentar a coleta nos dias de feira, conseguiu uma área por traz do comércio, para recolher os animais e também fazer a cobrança pelas corridas – era a “Intendência”.

No primeiro ano (1925), o prefeito Esperidião Rodrigues da Silva conseguiu planejar a primeira obra, considerada uma prioridade para a nova cidade – uma área para construção de um cemitério para o município,que seria no final da antiga rua da matança, atual Largo D. Fernando Gomes, onde cinqüenta anos depois foi edificada a Concatedral de Nossa Senhora do Bom Conselho e também o calçadão onde acontece a “Missa do galo” e outros eventos religiosos, durante o ano.

No ano seguinte, em 1926, a iniciativa privada dava os primeiros passos com o Sr. João Magalhães instalando uma “bolandeira” – um vapor para descaroçar algodão, um grande empreendimento para a época. E nesse mesmo ano, para realizar o seu grande sonho, o prefeito Esperidião Rodrigues da Silva tomou a decisão de projetar uma rua para marcar a sua passagem pelo poder público – seria a Av. Rio Branco, aproveitando para isso um longo corredor que saía da rua Nova ( atual praça Dep. Marques da Silva ) ,em direção à Cacimbas, cedendo uma faixa de terra de duas tarefas de sua propriedade. Aberto o logradouro, o prefeito escolheu um local privilegiado e também cedeu gratuitamente o imóvel para a construção da primeira Prefeitura de Arapiraca, que a partir de 1950 foi instalada a Câmara de Vereadores.

O PAÇO MUNICIPAL

O primeiro sobrado edificado em Arapiraca foi construído pelo comerciante Antônio Apolinário, na rua Nova (atual Praça Dep. Marques da Silva), e este prédio colonial foi escolhido para servir de sede para a festa de posse da Emancipação Política de Arapiraca, na data de 30 de outubro de 1924, que contou com a presença do então Governador Pedro da Costa Rego que participou também do baile comemorativo.

No sobrado antigo, chamado na época de Paço Municipal, passou a funcionar a junta Governativa, formada por líderes da comunidade, presidida por Francisco de Paula Magalhães, cuja gestão provisória foi de 31 de outubro de 1924 a 1º de janeiro de 1925, quando foi eleito (candidato único), O primeiro prefeito, o Major Esperidião Rodrigues da Silva.

No Paço Municipal, continuou também a Administração Municipal que passou a ser a primeira prefeitura de Arapiraca na Av. Rio Branco. Após a saída da Administração Municipal, no Paço Municipal, passou a funcionar a primeira Delegacia de Polícia, e mais adiante o imóvel serviu para a instalação do primeiro hotel da cidade, o Hotel Estrela,que passou por sucessivos proprietários.
Até que, em 1952, o Paço Municipal passou para a iniciativa e, em 1970, foi demolido o prédio já descaracterizado, onde foi construído o edifício atual com uma grande loja no térreo e salas para escritórios nos andares superiores.
Infelizmente, a exploração imobiliária eliminou os prédios históricos, testemunhas do passado, prejudicando a memória da cidade.

AS COISAS DO POVO SIMPLES

Antes que a fase de desenvolvimento atingisse Arapiraca, muitas águas rolaram por baixo da ponte e uma infinidade de fatos e coisas interessantes ocorreram na pequena urbe.

Longe estava a cidade da chamada civilização do consumo até 1950, Arapiraca era mais povo e produzia aquilo que consumia.

Assim, em vez de “iogurte”, tínhamos a coalhada escorrida que a velha Cipriana fazia com capricho numa panela de barro, no sítio Lagoa da Pedra e vendia pelas ruas de Arapiraca.]

As margaridas, umas pretas lavadeiras, vinham duas vezes por semana buscar roupas para lavar e trazer ervas, cascas e raízes para vender nas portas das casas. Era raspa de juá, mijo de ovelha, jericó, erva de passarinho, etc.

As mulheres do sítio Mata Limpa faziam macasada, beiju, pé-de-moleque e traziam, também, bredo majongomes para vender na semana santa ao povo de Arapiraca.

O velho Camilo do Sítio Fernandes fazia cachimbos de barro em quantidade, para abastecer os vendedores na feira de Arapiraca, onde era muito conhecido pela qualidade do produto.

Dona Maria Nobre ganhava seu dinheiro tinturando roupa do povo que botava luto e usava uma lama preta que existia no Poço Frio à margem do Rio Perucaba.

O prefeito de Arapiraca Manoel Lúcio percorria as ruas em sua charrete, inspecionando as obras (e as bodegas) do município. Quando voltava era “naquela base”; sua sorte era o fato de o cavalo conhecer o caminho da volta.

O velho Caio percorria a cidade vendendo seu produto aos usuários – o melado de Sergipe: “olhe o melado de Sergipe…”. Mas ficava irritado com a meninada que lhe importunava diariamente, com esta indagação – “ fumo velho o que é? “ E o velho respondia: ” – Pacaio é a sua mãe”.

Dona Otília, a criatura que fazia o melhor suspiro da paróquia, era a figura indispensável quando se tratava de festinhas e aniversários.

Atualmente, até as figuras populares estão desaparecendo, pois Arapiraca passa por uma transformação muito rápida e até o “cantar do galo”, coisa tão comum nas cidades interioranas, já é muito raro. Enfim, as coisas do povo simples já não ocorrem como no passado.

Extraído do livro “Arapiraca através do tempo” do historiador Zezito Guedes.

OS SÍTIOS

Mesmo com a presença dos grandes latifúndios na década de 40, Arapiraca possuía um verdadeiro cinturão verde circundando a cidade; sentia-se o cheiro da vegetação logo na saída das ruas, pois, ainda existia uma infinidade de ervas e frutas silvestres muito próximas do centro.

Contudo, quando Arapiraca conheceu a fase de desenvolvimento, a partir de 1950, o aspecto geral mudou muito, tendo em vista a mutilação desencadeada, tanto na área urbana, como na zona rural do município, quando foi destruída muita vegetação nativa para dar lugar à cultura de fumo.

Assim, havia o sítio de Caititús, um recanto aprazível repleto de fruteiras: cajueiros, mangueiras, laranjeiras, goiabeiras, mamoeiros, cujos frutos eram consumidos pela família, vizinhos e amigos, pois naquela época não havia mercado. Hoje a cidade cresceu e absorveu os Caititús que, de sítio, passou a bairro.
A Serra dos Ferreira, um dos sítios mais antigos, foi onde se instalaram os Ferreiras de Cacimbinhas. Era um lugar agradável, com muitas árvores frutíferas, onde o capitão João Ferreira criava pavões em quantidade. Hoje está muito diferente, com a devastação que lhe foi imposta.

O Sítio Mocó, o reduto do velho Lúcio Gomes, foi o mais castigado pela evolução. Era no sítio Mocó que se realizavam animadas festas de fim de ano, freqüentadas pelos jovens da sociedade arapiraquense. Quando asfaltaram o trecho da AL – 102, ligando Arapiraca à Taquarana, o asfalto destruiu totalmente o sítio Mocó com a igreja, riscando-o do mapa do município.

A Lagoa de Dentro foi outro sítio que foi vítima da transformação ocorrida na zona rural, e praticamente foi eliminado, dando lugar a vastas plantações de capim para criação de gado. Era no passado o mais animado dos sítios e dava-se ao luxo de promover bailes carnavalescos, fazendo concorrência com o carnaval de Arapiraca. Naquele tempo,dizia-se que o povo de Lagoa de Dentro vivia de festa o ano inteiro.

A Baixa Grande era um sítio onde estavam radicadas as tradicionais famílias – raízes de Arapiraca: José Emídio, Alexandre, Honório, Estevão, Messias, Bernardino e outras, que realizavam o chamado “derradeiro dia do fumo” e também animados pagodes do Gervásio. Existiam muitas fruteiras, onde o povo de Arapiraca costumava fazer passeios e piqueniques aos domingos e feriados. Suas festas de santos eram muito animadas.

O Sítio Fernandes era, talvez, o mais antigo e foi onde Manoel André foi buscar telhas para cobrir a primeira casa que construiu em Arapiraca. Era um celeiro de almocreves e de bons tocadores de pé de bonde, onde havia muitas festas. Coberto de frutas nativas e densa vegetação, do sítio, hoje, resta apenas um próspero distrito de Arapiraca.

O Sítio Guaribas era outro recanto muito animado e também um celeiro de frutas tropicais que a juventude da época costumava freqüentar. Era lá que morava o velho Simão Lopes, figura boêmia e folclórica muito conhecida nas ruas de Arapiraca. Era um local onde o povo gostava de dança do coco e cantar na colheita do fumo.

Entretanto, o sítio mais festejado e procurado pela meninada de então era o saudoso Poço frio, onde morava Né Magalhães, o velho Pedro Cavalcante e outros. Além das frutas comuns, existia uma infinidade de frutas silvestres como: umbu, jabuticaba quixaba,maçaranduba, pinha brava, azeitona, gogoia, juá e principalmente araçá. Segundo informa Edson Raimundo, os sabias eram tão gordos de tanto comer araçás, que quase não podiam voar. Foi outra vítima do progresso que devia ter sido poupada, pois foi a inútil barragem riacho Perucaba que eliminou o Poço Frio.

O Sítio Capiatã era um dos recantos bucólicos cheio de fruteiras: foi onde o fogueteiro Pedro Nunes edificou toda família e terminou seus dias. Atualmente, com a corrida imobiliária, o sítio ficou ligado ao centro urbano através da rua Pedro Nunes de Albuquerque.

Mais adiante, vinha o sítio Macacos, com a Igrejinha da Menina, um local romântico onde o velho Beijo realizava a festa de São Pedro, com uma animado pagode até o amanhecer do dia.

Logo após, está o sítio Massaranduba, outrora coberto de fruteiras, muita vegetação nativa e frutas silvestres. As festas na casa de Zé Vermelho, Luís Vicente, Tertuliano e as destalagens de folhas de fumo na casa do velho Euzébio, quando as moças cantavam o dia todo.

No Sítio Cavaco, residiam Antônio Ventura, João Ventura, Luiz Alexandre, José Macário, João Lúcio da Silva, e mais adiante Né Ângelo, Pero Alexandre, José Rufino, João Rufino, João Alexandre dos Santos e outros.

Extraído do livro “Arapiraca através do tempo” do historiador Zezito Guedes.

AS BODEGAS

Muito comum, no passado, era a presença das “bodegas” que, geralmente, o povo usava como ponto de encontro.

Além da função comercial junto à comunidade, existia o fator comunicação. Era nos adjuntos de bodega que o povo falava do tempo, produção agrícola, mercado, carestia, política, religião, cangaço, nascimento, transitoriedade, vida alheia, as “novas” do dia, as “estórias de trancoso”, como “a obra da raposa”, que seu Ivo contava; as mentiras inventadas por Zé Lopes ou as glosas que Simão Lopes, João Canário e Domingão improvisavam entre uma bicada e outra.

As reuniões nas bodegas constituíam uma hábito tradicional e, a partir dos anos 20, muitas ficaram famosas em Arapiraca. Na rua Nova (Pça. Marques da Silva) ,Toinho Rodrigues mantinha uma pequena bodega (não tinha bebidas), que era o ponto de encontro dos políticos: Tibúrcio Valeriano, José Lúcio da Silva, João Ribeiro Lima, Genésio Rodrigues, José Bernardino, Antônio Apolinário, entre outros. No final da rua Nova, Domingos Romualdo possuía uma bodega sortida, onde reunia um bom número de fregueses para as conversas do dia. Na rua do Cedro, esquina com a rua do Arame (Rua São Francisco), Manoel Petuba mantinha uma boa freguesia, quando o povo dava uma prosa diariamente. Na Boca da Caixa, Luiz Pereira Lima se estabeleceu, em 1929, com a bodega onde começou vendendo banana, pinha, jaca. Depois colocou algumas garrafas de aguardente, onde o povo daquela área fazia adjunto diariamente.

Na rua da Matança, André Félix instalou-se com uma bodega onde também reunia uma boa quantidade de fregueses, aí fazendo ponto de encontro todos os dias. Na rua do Cemitério, também se estabeleceram José Iziano e Pedro Arisitides com o mesmo ramo de bodegas. Ainda na Rua do Cedro José Oliveira, que comprou o negócio de Manoel Petuba, manteve uma sortida bodega com boa freguesia durante muitos anos; essa bodega de balcão ensebado, algum tempo depois passaria para as mãos do velho Morais, onde a meninada da atual Av. Rio Branco comprava bananola até o início dos anos 50.

Extraído do livro “Arapiraca através do tempo” do historiador Zezito Guedes.

A CULTURA DO FUMO

A região onde está situado o município de Arapiraca sempre cultivou cereais e a mandioca sempre foi o seu principal produto desde 1848. A cultura do fumo foi iniciada nos últimos anos do século XIX e teve como pioneiro Francisco Magalhães que, acolhendo sugestões de um almocreve de Lagarto-SE, chamado Pedro Vieira de Meio, que comerciava nas feiras da então vila de Arapiraca, plantou fumo pela primeira vez em um curral onde cuidava de gado no atual bairro de Cacimbas. Daí a expressão curral de fumo, ainda hoje empregada pelos plantadores de fumo da região, no seu primeiro estágio.

A plantação de fumo nos currais foi feita durante alguns anos, passando em seguida para os chamados baixos, no início deste século. Semeavam o fumo nos currais e quando a planta nascia era mudada para canteiros nos referidos baixios; a muda de planta vem dessa época quando foi cultivada até o ano de 1922. Essa fase constitui o segundo estágio e, nessa época, além de Francisco Magalhães, já cultivavam o fumo seus irmãos Rosendo Magalhães, Manoel Magalhães, João Magalhães, Marcelino Magalhães e seus parentes Domingos Barbosa, Pedro Leão, Messias Bernardino, Tibúrcio Valeriano, Pedro Honorato, Ambrosino Lima, Vicente Correia, Manoel Leite, João Barbosa, Firmino Leite, João Ferreira e outros.

Os fumicultores mais prósperos já plantavam (1915), até duas tarefas de fumo, aparecendo nesse ano o primeiro homem a armazenar o produto: José Bernardino compra a safra de alguns plantadores.

Muitos anos passaram cultivando fumo nos baixios e com métodos ainda primitivos, pois só no começo da década de 20 é que a cultura do fumo passaria a se desenvolver com mais intensidade, quando o filho do pioneiro Lino de Paula Magalhães, sentindo necessidade de aumentar o plantio, quebrou o tabu: fez a semeia no curral e daí mudou para a chã — terrenos mais altos – onde plantou uma tarefa e meia de fumo, usando um pouco de estrume de gado em cada planta, sendo este o terceiro estágio.

Arapiraca, em 1924, já emancipada politicamente, apresenta notável desenvolvimento; a produção do fumo do município já abastece (em tropas de burros), as cidades circunvizinhas de Penedo, Igreja Nova, Limoeiro de Anadia, Quebrangulo, Viçosa, Palmeira dos Índios. É nesse época que os irmãos Né de Paula Magalhães e Deca Magalhães (por informação de Laudelino Barbosa que vira em uma de suas viagens), fazem inovações na fumicultura, adaptando nova técnica na preparação do fumo em rolo, antes enrolado no pé de um banco. Introduzem utensílios de madeira, como: macaca, moleque, banco, até então desconhecidos na região; também a secagem das folhas que até essa época era feita à sombra dos cajueiros, passou a ser em sequeiros; tudo isso contribuiu para a evolução da cultura fumageira, eliminando um sistema por demais rudimentar e antiprodutivo, implantando métodos que ainda hoje são empregados pelos fumicultores de Arapiraca.

Em 1928, o fumo em rolo era vendido pela primeira vez, para fora do Estado, ao Sr. José Tomáz de Caruaru-PE. Em 1930, José Pedro Proteciano (apesar de assustado com a Revolução e com os cangaceiros), já carrega em tropas de burros para Águas Belas-PE. Nesse ano, Lino de Paula Magalhães aumenta a área de cultivo para dez tarefas, tornando-se o maior produtor do município de Arapiraca. Em 1934, falece o pioneiro Francisco Magalhães, mas os herdeiros assumem o comando e a esta altura, além dos plantadores já citados, plantam também Agapito Magalhães, Gregório Magalhães, Domingos Magalhães, Luiz Magalhães, Tibúrcio Magalhães, Domingos Lúcio da Silva, Rosendo Lima, Né Rosendo, Pedro Alexandre, José Lúcio da Silva, Manoel Leão, Rosendo Gama, João Nunes, Lino Barbosa, Manoel Lúcio Correia, Francisco Lúcio, Domingos Terto, Aprígio Jacinto, José Emídio, Gervásio Oliveira, José Honório, Pedro Romualdo, José Tertuliano, Domingos Honório, Antônio Leão, Domingos Romualdo, Lúcio José da Silva, Manoel Lúcio da Silva, Manoel Pereira Santos, João Lúcio da Silva, Antônio Ventura, Né Angelo, Izidro Leão, João Ventura, José Macário, Manoel Clarindo, José Ventura, André Leão, foram os principais plantadores de fumo desta fase, havendo quem plantasse até 20 tarefas.

Em abril de 1938, os cangaceiros passaram próximo a Arapiraca e Lampeão aprisionou Lino de Paula no sítio Fernandes, mas o fazendeiro empreendeu fuga espetacular livrando-se do bandoleiro. No ano seguinte, tem início a 2a Guerra Mundial, todavia esses fatos não arrefeceram o entusiasmo dos fumicultores que continuaram evoluindo a passos largos.

Manoel (Né), de Paula Magalhães se desloca para o Estado da Paraíba com sua família e seus primos José Leão no ano de 1934.

Né Cavalcante, Laudelino Leite e Anatólio Leite ( que em, 1945, inventou o carro usado na viração do fumo), quando seriam os pioneiros no cultivo de fumo na região de Araçá e Sapé.

Apesar do progresso registrado nessa época, a produção do município era ainda limitada e os compradores de toda produção do fumo em rolo eram José Tomáz, Manoel Targino, Miguel Dudu, José Medeiros, Dedi, Macário, Pedro Lau, os irmãos Vaqueiro, José Carvalho, Dóia, Arnô, Francisco Carvalho, Cecílio, Antônio Paulino, Pedro Pirraia, Augusto Paulino, Antônio Carvalho, etc.
Surge, em 1945, pela primeira vez, o comércio de folhas: José Lúcio da Silva e Lino de Paula Magalhães se estabelecem com armazéns para compra de folhas. Surge também a primeira fábrica de charutos por intermédio de José Lúcio de Melo a “Fábrica de Charutos Leda”. No ano seguinte, aumenta o comércio de folhas com a presença de Joel Esteves, o primeiro corretor baiano que se instalou em Arapiraca no pós-guerra, comprando folhas para várias firmas da Bahia, como Mário Cravo, Suerdyk, João Martins Mamona. Daí por diante, surgiram outros corretores como Francisco Machado, Pedro Figueredo, Valdomiro Barbosa.
Em 1949, seria fundado por José Lúcio de Meio o Clube dos Fumicultores de Arapiraca.

Instala-se em Arapiraca a primeira firma internacional,(1950), a Exportadora Garrido dirigida por Galeno. A partir daí, o desenvolvimento da cultura do fumo torna-se impressionante; mais da metade da população já planta fumo e mais uma vez modificou-se o sistema: Lino de Paula Magalhães, por sugestão do Dr. Francisco Oiticica, faz algumas experiências e substitui o adubo orgânico (estrume), por adubo químico (tortas, salitre, etc.), sendo esse o quarto e último estágio. Arapiraca, a essa altura, já conta com créditos de várias agências bancárias e com uma cooperativa criada por Lourenço de Almeida, que a conduziu com sacrifício por muitos anos, tentando dar alguma assistência aos fumicultores. Infelizmente essa cooperativa nunca atingiu o seu objetivo (vender a terra, financiar, comprar o produto, etc), obrigando dezenas de famílias a procurar a Cooperativa 13 em Lagarto-Sergipe, que tem procurado ajudar o pequeno produtor.

Esse período caracteriza-se por uma verdadeira corrida de firmas internacionais em busca de folhas; instalam-se novas firmas aparecendo os primeiros gringos que se hospedavam no Hotel Lopes: Exportadora Bukovitz Ltda, Fraga & Sobel, Tabacalera do Brasil, C. Pimentel, Carleoni, Souza Cruz, cujo técnico Mr. James Reed, na época, insistiu para que os fumicultores da região plantassem o fumo tipo amarelinho, que produzia uma folha de qualidade especial; infelizmente todo esforço seria em vão,pois, essa espécie não servia para o fumo em rolo e assim seria mais vantagem para os fumicultores plantar de um tipo que desse para as duas coisas simultaneamente: para folha e rolo. E, assim, continuaram plantando as espécies mais comuns: rodoleiro, língua de vaca, rapé, orelha de burro, folhiço, verdão e outros. Logo após chegariam Amerino Portugal e Mangerroux, foram estas as primeiras firmas internacionais. Terminada a década de 50, aparece outra inovação importante: Edvaldo Nobre Magalhães enrola o fumo fino, que se adaptaria melhor aos consumidores do Sul — São Paulo, Paraná, porém, com uma mão de obra mais dispendiosa, pois, o rolo é formado com quatro pernas ou pavios; esse tipo de fumo é produzido apenas por uma minoria, dada as dificuldades técnicas. O fumo fino foi introduzido no comércio de São Paulo por intermédio do comerciante Antônio Pinto que comprou a safra do Sr. João Lopes (em, 1962) , e foi lançado em Minas por José de Souza Guedes que vendeu a Lafaiete Pinto Mendes em Itanhandú.

A década de 60, surge como um período dos mais florescentes e muita gente dos mais variados ramos, fascinada pelos bons lucros se infiltrou no comércio de fumo sendo bem-sucedida. Conseguiram essas pessoas verdadeiras fortunas, ora armazenando o produto, ora comerciando fertilizantes e outros, industrializando o fumo em rolo, como Valdomiro Barbosa, Francisco Pereira, Deca Moço, Norberto Severino, Eduardo Alves da Silva, Aurelino Ferreira Barbosa, José Alexandre, Severino Araújo Silva, Mário Lima e outros.

Essa fase foi realmente das mais promissoras; a cultura do fumo passou a ocupar toda a área do município de Arapiraca e começou a penetrar nos municípios circunvizinhos: Limoeiro de Anadia, Feira Grande, Junqueiro, Coité do Nóia, Taquarana, São Sebastião, Campo Grande, Girau do Ponciano, Igací, que foram atraídos pelos bons rendimentos do chamado ouro preto. Atualmente, a região de Arapiraca já se encontra carente de vegetação. O clima já começa a mudar e o desequilíbrio ecológico é patente; a precipitação de chuvas que outrora ocorria regularmente, hoje já não ocorre e como consequência as safras, às vezes, são prejudicadas; mesmo assim, o município de Arapiraca ainda continua sendo um dos maiores parques fumageiros da América Latina e milhares de toneladas de folhas são exportadas para o exterior, tendo como principal produtor-exportador Eloísio Barbosa Lopes, com a média de mil e trezentas tarefas anuais, isto sem contar com o fumo em rolo que abastece quase todo o Nordeste e parte do Sul do Brasil.

Grande quantidade de fumo ainda é industrializada .em firmas de Arapiraca, tais como: Fumo Rei do Nordeste, Fumo Extra Forte, Fumo Du-Melhor, Fumo Super-Bom, Fumo Jangadeiro, Fumo Jóia, Fumo Sempre Forte, Fumo Império, Fumo Extra Bom, etc. (indústrias de fumo picado e condicionado em embalagens plásticas) Conforme dados estatísticos do I.B.G.E., a população do município de Arapiraca nas últimas décadas era a seguinte:
1940-25.514 habitantes
1950- 37.073
1960-46.715
1970- 94.287
1978- (estimativa) 140. 000

Possuindo uma área de 614 Km2, é Arapiraca a cidade líder no Estado de Alagoas e a que mais cresce no Nordeste, construindo (oito) casas por dia.

Apesar do progresso observado em Arapiraca e da evolução tecnológica nesses últimos anos, a produção do fumo em rolo ainda não tem um mercado certo não havendo, portanto, um escoamento para toda a produção; também ainda continua com os mesmos métodos introduzidos pelos pioneiros na década de 20:semeia, muda, plantação, varais, sequeiros, mão de obra para fazer o rolo; não conseguindo sequer debelar uma praga conhecida por “Meia” (espécie de lodo ou mofo), que destrói todos os anos as sementeiras, ocasionando sérios prejuízos aos plantadores; as inovações foram restritas: a permuta do estrume pelo adubo químico em 1953, o aparecimento do fumo em quatro pernas, em 1962, a introdução da máquina no preparo da terra no início da década de 70, através de Eloísio Barbosa Lopes e alguma modificação na secagem de folhas. Excetuando isto, 70% da colheita ainda continua sendo manual, o que onera excessivamente o produto, obrigando alguns, a partir de 1970, a investir em outras áreas como: pecuária, loteamento de imóveis, cultivo de mandioca, plantação de abacaxi, cerâmica (João Lúcio da Silva, José Maia, José Leão, Eloísio Barbosa Lopes e outros), que evitaram a monocultura.

Ocorre, também na década de 70, outra profunda modificação: além da meiação, acaba-se pouco a pouco o sistema de moradores implantado ainda na década de 30; ao invés de dar a morada no terreno, o proprietário prefere pagar ao trabalhador por produção, mesmo transportando-o diariamente para o local da colheita, livrando-se dessa maneira das obrigações sindicais terminada a colheita, logicamente, termina o vínculo com o trabalhador que geralmente se desloca para a região dos canaviais. As relações entre patrão e trabalhador, como acontece na agricultura, nunca chegaram a bom termo, apesar da presença do órgão trabalhista. Se por um lado o patrão nega-se a assinar a carteira do trabalhador ou se esquiva em mantê-lo durante o verão, o trabalhador por seu turno, uma vez com a carteira assinada, julga-se com direito a abusar, não trabalhar, prejudicar a colheita, etc. E quando procura o Sindicato Rural este o defende, porém prejudica-o, pois ele não consegue mais trabalho em outras fazendas, ninguém o quer. E um problema insolúvel até agora e acreditamos ser muito difícil se encontrar um denominador comum, seria no caso, mudar uma mentalidade secular.

CANTIGAS DAS DESTALADEIRAS

Com a expansão da cultura do fumo em Arapiraca, a partir da década de 20, cresceu também a necessidade de mão de obra e assim convergiram para Arapiraca trabalhadores de várias regiões do Nordeste, que foram trazendo em suas bagagens, costumes, folguedos, crendices. seitas, cantos, os quais foram se adaptando à primitiva cultura já existente e assim se concentrou um sem número de cantigas que há mais de meio século são cantadas na épocas da colheita de fumo pelas mulheres que retiram os talos das folhas de fumo, as conhecidas destaladeiras de fumo.

Estando o município de Arapiraca situado no Agreste Alagoano, entre a Zona da Mata e a do Sertão, essas regiões muito contribuíram e exerceram grande influência na formação dessas cantigas utilizadas na colheita. Na Mata, temos o coco, a cantiga de roda, o reizado; no Sertão, o aboio, a toada, a cantoria de viola, a cantiga de eito. Todas essas manifestações folclóricas influíram decisivamente na formação das cantigas de salão de fumo que as mulheres entoam, sentadas no chão, afastando o sono enquanto destalam as folhas e que, com o passar do tempo, foram adquirindo características próprias, constituindo uma manifestação do povo da região fumageira.

As primeiras cantigas que apareceram em Arapiraca foram dedicadas aos plantadores de fumo da época:


“ Seu Né “Seu Né de Paula
Seu Né Se parece um raio de sol
Só brinca hoje Quando vem chegando
Na fazenda se quis é” Na fazenda Seridó”

“ Seu Né de Paula
Com todas trabaiadeira
Seu Toinho Cavalcante
Enrola fumo na carreira”
“ Fazenda Pernambucana
Fazenda que tem valô
Ela paga e não engana
Só ganha quem trabaiô”

Essas últimas estrofes fazem referências às Fazendas e aos primeiros enroladores que atuavam nos salões de fumo, junto às destaladeiras: Toinho Cavalcante, Juca Magalhães, Rubens Pedro, Zezé, Sulino, José Macário, José Vermelho e outros.

Entoando essas cantigas, muitas cantadeiras marcaram época nos salões onde cantavam, tirando os versos: Maria de Lima Araújo, Rosa Leite, Detinha, no bairro de Cacimbas. Maria Julieta, Maria Neuza, Amália, Luzia, Rosa Macário, no bairro de Baixa Grande; Joana, Regina, Nina Vital, no Alto do Cruzeiro; Júlia, Rosália, Maria de Lourdes, Angelita, no sítio Mangabeira; Alice Alves, na Lagoa da Pedra; Lourdes Zacarias, Zeza, na Fazenda Pernambucana. Essas cantigas em formas de trovas, (rimas ABCB), sem acompanhamentos musicais, são entoadas em várias vozes, formando um coro harmonioso no estribilho (refrão), com uma só voz no improviso dos versos geralmente tirados pelas líderes do salão. Se o refrão da cantiga agrada em cheio, elas cantam até durante horas; mas, normalmente, as destaladeiras mudam de cantiga para não esfriar o entusiasmo:

“ Essa cantiga já tá véia
Tá boa de remendá
Com taquinho de pano novo
Uma agúia e um dedá”
“ Eu não como ceará
Nem também carne de péia
Arrenove essa cantiga
Que já tá ficando véia”

E assim elas estimulam cada vez mais, mantêm o salão em permanente alegria, evitam o tédio ou o sono, usando sátiras, ironias, chistes, gracejos espirituosos que são mais das vezes interrompidos por uma algazarra geral:

“ Eu não quero me casá
Com rapaz pequenininho
Prá botar ele no braço
Tururú meu macaquinho”

“Meu amó era um cachorro De cachorro virou gente Mas como não tem palavra

“ Menino casa comigo
Que nós não morre de fome
Minha mãe tem uma porca véla
Quando ela matá nós come”

“Eu agora vou casá
Se eu casá eu vivo bem Se eu ficá no caritó”

E, principalmente, versos românticos impregnados de lirismo, reminiscências puras do romantismo do século passado que o sertão nordestino conservou talvez como nenhuma outra região brasileira e que são geralmente dedicados pelas destaladeiras aos rapazes solteiros — bem- amados — alguns de rara beleza, verdadeiros poemas conforme podemos observar:

“ Eu tranquei na mão um riso
De tua boca mimosa
Quando eu fui abrir a mão
Tava toda cor de rosa”

“Essa noite choveu ouro
Prata fina orvaiou
Eu não aonde tava
Meu sentido aonde andou”
“ Já fui cravo, já fui rosa
Já fui de teu coração
Hoje sou a vassourinha
Com que vais varrê o chão”

“As estrela do céu corre
Eu também quero corrê
Elas corre atrás da lua
Eu atrás de bem querê”

Existe ainda os versos que as destaladeiras empregam para chamar alguém, fazer interrupções, pedidos, insinuações, junto aos proprietários como observamos nessas estrofes:

“ Patrão eu quero bebê
Na vida eu tenho prazê
Se eu não bebê
Eu vou-me imbora”

“Feche a porta e abra a porta
Sem bulir na fechadura
Se eu fosse o dono do fumo
Oferecia rapadura”
“ Eu plantei um pé de cana
Nasceu um pé de ananá
Seu eu fosse o dono do fumo
Oferecia guaraná”

“Quem não pode com a formiga
Não assanha o formigueiro
Quem não pode dar o vinho
Não se mete a ser meeiro”

Muito usados também eram os chamados versos de maltratar que as destaladeiras cantam quando querem xingar alguém que não mais desejam:

“ No tempo que eu te amava
Rompia matas de espinho
Hoje eu pago com dinheiro
Para não vê o teu focinho”

“Eu plantei um pé de cravo
Nasceu um pé de jasmin
Num namoro rapaz branco
Do cabelo de tuim”
“ Quem quisé comprar eu vendo
Um amor que já foi meu
Uma banda tá inteira
E outra a barata roeu”

“Lá do céu caiu um cravo
Choviscadinho de amarelo
Menino interessa a mim
Mas amor eu não te quero”

Nas cantigas das destaladeiras, observamos os mais variados temas: do lírico ao sarcástico, do satírico ao irreverente, do espirituoso ao chamado verso de roedeira, que também é conhecido como paixão recolhida.
Como acontece com várias manifestações folclóricas, as destaladeiras também gostam de render homenagens, fazer louvações a lugares, a proprietários, algum visitante, em versos improvisados nos salões de fumo, conforme observamos a seguir:

“ Arapiraca é terra boa
Todo mundo diz que é
Terra de mulé bonita
Viva Manoé André”

“Mandei carta p’ro Recife
Biête p’ra Maceió
Tô amando um moreninho
Da parte que nasce o só”
“ Se o canário bem subesse
Quanto custa uma saudade
Não cantava em minha vista
As quatro hora da tarde”

“O passarinho avoou
Se sentou na verde rama
Mando-te dizer ingrato
De longe também se ama”
Viva o cravo, viva a rosa
Viva com toda roseira
Viva o dono do fumo
Com todas trabaiadeira”

“Oh que estrela tão bonita
Do lado de Muricí
Só comparo aquela estrela
Com uma pessoa d’aqui”
“ Vai-te carta que te mando
Por esse mundo sem fim
Perguntá a meu benzinho
Se ainda lembra de mim”

“Quem me dera eu vê hoje
Quem tá em meu pensamento
Meu coração toma um susto
Meu corpo toma um alento”

Um fato curioso, no entanto, nos chama a atenção nessa pesquisa: não conseguimos registrar um só verso contendo reclamações ou desprezo pelo trabalho, não há lamentações nas cantigas da colheita de fumo, daí concluímos que existe um grande contentamento no ambiente onde elas executam a tarefa:

“ O galo cantou, cantou, moreninha
O dia manheceu, manheceu
Hoje aqui neste salão, moreninha
Quem canta mió é eu”
“ O cantá da meia noite
É um cantá incelente
Acorda quem tá dormindo
Alegra quem tá doente”

Os temas empregados no apogeu dessas cantigas, nas décadas de 40 e 50, retratavam o meio ecológico da época : árvores, frutas, flores, pássaros, açudes, que ainda não tinham sido devastados pelo homem para dar lugar a cultura do fumo, conforme registramos:

“Quem namora moça gorda vai topá com satanáz quando ela sai na rua
“ Moça que ama chofé ama cachorro também cachorro ainda tem rabo

“Bananeira tá de luto
Descanso dos passarinhos As folhas de sentimento
Quem me dera eu descansá Bem que disse a bananeira
Nos teus braços um bucadinho” Quem amô tem tormento”
“ Cravo não me chame rosa “A sucena me fez queixa
Que o meu tempo já passou Que sua rama murchou
Me chame laranja verde Eu também fiz queixa a ela
Da gáia que não vingou” Que meu amô se acabou”

Nos últimos tempos, nota-se perfeitamente a presença de elementos urbanos, sinais, símbolos, da chamada sociedade de consumo, conforme observamos nas estrofes seguintes:

“As folhas da bananeira
De manhã manhece queta
Eu conheço meu benzinho
Lá vai meu bujão de gáz” Quando vem de bicicreta”
“Eu preguei o teu retrato
Numa lata de manteiga
Sem vergonha é rapaz branco
E chofé nem rabo tem” Que namora com uma nêga”

Também convém ressaltar que muitas dessas cantigas de salão de fumo já foram publicadas em jornais, plagiadas e até gravadas com modificação da letra, da música e do ritmo. Mas, essas cantigas são anônimas, produtos da invenção do povo simples da roça.

E assim, as mulheres trabalham melhor durante horas a fio na destalagem e seleção das folhas para formar o rolo, em salas, salões ou armazéns utilizados para a tarefa. Essas “cantigas de salão de fumo”, como são conhecidas em Arapiraca, sempre constituíram uma grande atração na época da colheita, quando uma intensa alegria tomava conta dos salões e ouvia-se a longa distância a cantilena das “destaladeiras”. É pena que essas cantigas, autênticas manifestações, tão apreciadas pelo povo, não continuem com a mesma freqüência do passado, vítimas que foram da própria evolução tecnológica implantada na região nos últimos anos da década de 50, quando em Arapiraca se instalaram importantes firmas internacionais que passaram a explorar o comércio de folhas de fumo, proibindo as “destaladeiras” de cantar no trabalho de seleção das folhas, alegando que, além de fazerem barulho, diminuíam a produção diária dos armazéns. Hoje, elas trabalham caladas nos armazéns, sem conversar ou fazer qualquer ruído.

As cantigas tiveram o seu período áureo nas décadas de 40 e 50; até o ano de 1959, as “destaladeiras” cantavam muito nos salões de fumo em pleno centro da cidade e até jovens da elite de Arapiraca misturavam-se com as mulheres na destalagem do fumo e se deleitavam, cantando versos de amor o dia inteiro, numa alegria contagiante e que atingia o seu ponto máximo no chamado derradeiro dia de fumo, quando era encerrada a destalação da safra e o patrão oferecia uma buchada de um carneiro gordo, bem como um “forró” acompanhado ao som de harmônica e muita bebida para comemorar o encerramento da colheita. Foram dias memoráveis os derradeiros dias de fumo nos salões de Né de Paula Magalhães, na Fazenda Seridó, Lino de Paula Magalhães, na Fazenda Ouro Preto, Luis Pereira Lima, na Fazenda Pernambucana, João Lopes, José Honorato, José Imidio, Né Angelo, João Ventura, Pedro Alexandre, Domingos Honório, Gervásio Oliveira que oferecia também um pagode. Eram verdadeiras festas, com os salões enfeitados e as “destaladeiras” bem inspiradas com o vinho, cantando os versos de despedida:

“ Rapaziada adeus, adeus “Adeus amante querido
Adeus, adeus que já me vou Adeus porta de meus pais
Eu levo pena e saudade Só venho aqui para o ano
Dos moreno que ficou” Por hoje não canto mais”
“ Adeus cajueiro “Despedida meu bem despedida
Adeus cajuí A nossa função se acabou
Adeus que eu vou-me imbora Vamos deixá para o ano
Para o ano eu volto aqui” Se nós todos vivo for”

À noite, começava o forró com o salão repleto de trabalhadeiras, a poeira cobrindo ía até ao amanhecer do outro dia, ao som dos pés de bode de João Chico, Odilon Zumba, Lau Catenga, João Pernambucano.
Atualmente, apenas em alguns pontos da zona rural da região fumageira, as mulheres ainda cantam na destalação das folhas de fumo, porém, os proprietários quase não realizam festas comemorando o final da safra; também observa-se claramente que o processo tecnológico já se faz presente: muitos fumicultores, utilizando automóveis, já entregam as folhas de fumo à domicílio e as recolhem no fim do dia; logicamente as mulheres não se reúnem em salões para cantar. Também já penetraram até nos sítios o rádio, o gravador, a televisão que irão fatalmente eliminar uma das últimas formas de canto de trabalho que ainda existe no Brasil, impondo uma inevitável transformação na cultura do povo.

Hoje, com essas anotações, estamos tentando fazer um modesto registro dessas cantigas da colheita de fumo de Arapiraca, para que elas não desapareçam com o passar do tempo. Esta pesquisa, entretanto, contém apenas uma amostragem com algumas cantigas e os versos tirados pelas cantadeiras dos salões da “Terra do Fumo”, a progressista Arapiraca.

Extraído – com autorização do autor – do Livro A Cantiga da Destaladeira de Fumo de Arapiraca – do historiador Zezito Guedes