Cantigas das destaladeiras de fumo de Arapiraca
13 de abril de 2015
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Cantigas das destaladeiras de fumo de Arapiraca


Com a expansão da cultura do fumo em Arapiraca, a partir da década de 20, cresceu, também a necessidade de mão de obra e assim convergiram para Arapiraca trabalhadores de várias regiões do Nordeste, que foram trazendo em suas bagagens, costumes, folguedos, crendices. seitas, cantos, os quais foram se adaptando à primitiva cultura já existente e assim se concentrou um sem número de cantigas que há mais de meio século são cantadas na épocas da colheita de fumo pelas mulheres que retiram os talos das folhas de fumo as conhecidas destaladeiras de fumo.

Estando o município de Arapiraca, situado no Agreste Alagoano, entre a Zona da Mata e a do Sertão, essas regiões muito contribuiram e exerceram grande influência na formação dessas cantigas utilizadas na colheita. Na Mata, temos o côco, a cantiga de roda, o reizado; no Sertão, o aboio, a toada, a cantoria de viola, a cantiga de eito. Todas essas manifestações folclóricas influiram decisivamente na formação das cantigas de salão de fumo que as mulheres entoam, sentadas no chão, afastando o sono enquanto destalam as foihas e qu.e, com o passar de tempo, foram adquirindo características próprias, constituindo uma manifestação do povo da região fumageira.

As primeiras cantigas que apareceram em Arapiraca, foram dedicadas aos plantadores de fumo da época:

“ Seu Né “Seu Né de Paula
Seu Né Se parece um raio de sol
Só brinca hoje Quando vem chegando
Na fazenda se quisé” Na fazenda Seridó”

“ Seu Né de Paula
Com todas trabaiadeira
Seu Toinho Cavalcante
Enrola fumo na carreira”
“ Fazenda Pernambucana
Fazenda que tem valô
Ela paga e não engana
Só ganha quem trabaiô”

Essas últimas estrofes fazem referências as Fazendas e aos primeiros enroladores que atuavam nos salões de fumo, junto as destaladeiras: Toinho Cavalcante, Juca Magalhães, Rubens Pedro, Zezé, Sulino, José Macário, José Vermelho e outros.
Entoando essas cantigas, muitas cantadeiras marcaram época nos salões onde cantavam, tirando os versos: Maria de Lima Araújo, Rosa Leite, Detinha, no bairro de Cacimbas. Maria Julieta, Maria Neuza, Amália, Luzia, Rosa Macário, no bairro de Baixa Grande; Joana, Regina, Nina Vital, no Alto do Cruzeiro; Júlia, Rosália, Maria de Lourdes, Angelita, no sítio Mangabeira; Alice Alves, na Lagoa da Pedra; Lourdes Zacarias, Zeza, na Fazenda Pernambucana. Essas cantigas em formas de trovas, (rimas ABCB), sem acompanhamentos musicais, são entoadas em várias vozes, formando um coro harmonioso no estribilho (refrão), com uma só voz no improviso dos versos geralmente tirado pelas líderes do salão. Se o refrão da cantiga agrada em cheio, elas cantam até durante horas; mas, normalmente, as desL taladeiras mudam de cantiga para não esfriar o entusiasmo:

“ Essa cantiga já tá véia
Tá boa de remendá
Com taquinho de pano novo
Uma agúia e um dedá”
“ Eu não como ceará
Nem também carne de péia
Arrenove essa cantiga
Que já tá ficando véia”

E assim elas estimulam cada vez mais, mantêm o salão em permanente alegria, evitando o tédio ou o sono, usando sátiras, ironias, chistes, gracejos espirituosos que são mais das vezes interrompidos por uma algazarra geral:

“ Eu não quero me casá
Com rapaz pequenininho
Prá botar ele no braço
Tururú meu macaquinho”

“Meu amó era um cachorro De cachorro virou gente Mas como não tem palavra

“ Menino casa comigo
Que nós não morre de fome
Minha mãe tem uma porca véla
Quando ela matá nós come”

“Eu agora vou casá
Se eu casá eu vivo bem Se eu ficá no caritá

E principalmente versos românticos impregnados de lirísmo, reminiscências puras do romântismo do século passado que o sertão nordestino conservou talvez como nenhuma outra região brasileira e que são geralmente dedicados pelas destaladeiras aos rapazes solteiros — bem amados — alguns de rara beleza, verdadeiros poemas conforme podemos observar:

“ Eu tranquei na mão um riso
De tua boca mimosa
Quando eu fui abrir a mão
Tava toda cor de rosa”

“Essa noite choveu ouro
Prata fina orvaiou
Eu não aonde tava
Meu sentido aonde andou”
“ Já fui cravo, já fui rosa
Já fui de teu coração
Hoje sou a vassourinha
Com que vais varrê o chão”

“As estrela do céu corre
Eu também quero corrê
Elas corre atrás da lua
Eu atrás de bem querê”

Existe ainda os versos que as destaladeiras empregam para chamar alguém, fazer interrupções, pedidos, insinuações, junto aos proprietários como observamos nessas estrofes:

“ Patrão eu quero bebê
Na vida eu tenho prazê
Se eu não bebê
Eu vou-me imbora”

“Feche a porta e abra a porta
Sem bulir na fechadura
Se eu fosse o dono do fumo
Oferecia rapadura”
“ Eu plantei um pé de cana
Nasceu um pé de ananá
Seu eu fosse o dono do fumo
Oferecia guaraná”

“Quem não pode com a formiga
Não assanha o formigueiro
Quem não pode dar o vinho
Não se mete a ser meeiro”

Muito usados também eram os chamados versos de maltratar que as destaladeiras cantam quando querem xingar alguém que não mais desejam:

“ No tempo que eu te amava
Rompia matas de espinho
Hoje eu pago com dinheiro
Para não vê o teu focinho”

“Eu plantei um pé de cravo
Nasceu um pé de jasmin
Num namoro rapaz branco
Do cabelo de tuim”
“ Quem quisé comprar eu vendo
Um amor que já foi meu
Uma banda tá inteira
E outra a barata roeu”

“Lá do céu caiu um cravo
Choviscadinho de amarelo
Menino interessa a mim
Mas amor eu não te quero”

Nas cantigas das destaladeiras observamos os mais variados temas: do lírico ao sarcástico, do satírico ao irreverente, do espirituoso ao chamado verso de roedeira, que também é conhecido como paixão recolhida.
Como acontece com várias manifestações folclóricas, as destaladeiras também gostam de render homenagens, fazer louvações a lugares, a proprietários, algum visitante, em versos improvisados nos salões de fumo, conforme observamos a seguir:

“ Arapiraca é terra boa
Todo mundo diz que é
Terra de mulé bonita
Viva Manoé André”

“Mandei carta p’ro Recife
Biête p’ra Maceió
Tô amando um moreninho
Da parte que nasce o só”
“ Se o canário bem subesse
Quanto custa uma saudade
Não cantava em minha vista
As quatro hora da tarde”

“O passarinho avoou
Se sentou na verde rama
Mando-te dizer ingrato
De longe também se ama”
Viva o cravo, viva a rosa
Viva com toda roseira
Viva o dono do fumo
Com todas trabaiadeira”

“Oh que estrela tão bonita
Do lado de Muricí
Só comparo aquela estrela
Com uma pessoa d’aqui”
“ Vai-te carta que te mando
Por esse mundo sem fim
Perguntá a meu benzinho
Se ainda lembra de mim”

“Quem me dera eu vê hoje
Quem tá em meu pensamento
Meu coração toma um susto
Meu corpo toma um alento”

Um fato curioso no entanto, nos chama a atenção nessa pesquisa: não conseguimos registrar um só verso contendo reclamações ou desprezo pelo trabalho, não há lamentações nas cantigas da colheita de fumo, daí concluimos que existe um grande contentamento no ambiente onde elas executam a tarefa:

“ O galo cantou, cantou, moreninha
O dia manheceu, manheceu
Hoje aqui neste salão, moreninha
Quem canta mió é eu”
“ O cantá da meia noite
É um cantá incelente
Acorda quem tá dormindo
Alegra quem tá doente”

Os temas empregados no apogeu dessas cantigas, nas décadas de 40 e 50, retratavam o meio ecológico da época : árvores, frutas, flores, pássaros, açúdes, que ainda não tinham sido devastados pelo homem, para dar lugar a cultura do fumo conforme registramos:

“Quem namora moça gorda Vai topá com satanáz Quando ela sai na rua
“ Moça que ama chof éAma cachorro também Cachorro ainda tem rabo

“Bananeira tá de luto
Descanso dos passarinhos As folhas de sentimento
Quem me dera eu descansá Bem que disse a bananeira
Nos teus braços um bucadinho” Quem amô tem tormento”
“ Cravo não me chame rosa “A sucena me fez queixa
Que o meu tempo já passou Que sua rama murchou
Me chame laranja verde Eu também fiz queixa a ela
Da gáia que não vingou” Que meu amô se acabou”

Nos últimos tempos nota-se perfeitamente a presença de elementos urbanos, sinais, símbolos, da chamada sociedade de consumo, conforme observamos nas estrofes seguintes:

“As folhas da bananeira
De manhã manhece queta
Eu conheço meu benzinho
Lá vai meu bujão de gáz” Quando vem de bicicreta”
“Eu preguei o teu retrato
Numa lata de manteiga
Sem vergonha é rapaz branco
E chofé nem rabo tem” Que namora com uma nêga”

Também convém ressaltar que muitas dessas cantigas de salão de fumo já foram publicadas em jornais, plagiadas e até gravadas com modificação da letra, da música e do rítmo. Mas, essas cantigas são anônimas, produtos da invenção do povo simples da roça.
E assim, as mulheres trabalham melhor durante horas àfio, na destalagem e seleção das folhas para formar o rolo, em salas, salões ou armazéns utilizados para a tarefa. Essas “cantigas de salão de fumo” como são conhecidas em Arapiraca, sempre constituiram uma grande atração na época da colheita, quando uma intensa alegria tomava conta dos salões e ouvia-se a longa distância, a cantilena das “destaladeiras”. É pena que essas cantigas autênticas manifestações, tão apreciadas pelo povo, não continuem com a mesma freqüência do passado, vítimas que foram da própria evolução tecnológica implantada na região nos últimos anos da década de 50, quando em Arapiraca se instalaram importantes firmas internacionais que passaram a explorar o comércio de folhas de fumo, proibindo as “destaladeiras” de cantar no trabalho de seleção das folhas, alegando que, além de fazerem barulho, diminuiam a produção diária dos armazéns. Hoje, elas trabalham caladas nos armazéns, sem conversar ou fazer qualquer ruído.

As cantigas tiveram o seu período áureo nas décadas de 40 e 50; até o ano de 1959 as “destaladeiras” cantavam muito nos salões de fumo em pleno centro da cidade e até jovens da elite de Arapiraca, misturavam-se com as mulheres na destalagem do fumo e se deleitavam cantando versos de amor o dia inteiro, numa alegria contagiante e que atingia o seu ponto máximo no chamado derradeiro dia de fumo, quando era encerrada a destalação da safra e o patrão oferecia uma buchada de um carneiro gordo, bem como um “forró” acompanhado ao som de harmônica e muita bebida para comemorar o encerramento da colheita. Foram dias memoráveis os derradeiros dias de fumo nos salões de Né de Paula Magalhães, na Fazenda Seridó, Lino de Paula Magalhães, na Fazenda Ouro Preto, Luis Pereira Lima, na Fazenda Pernambucana, João Lopes, José Honorato, José Imi-. dio, Né Angelo, João Ventura, Pedro Alexandre, Domingos Honório, Gervásio Oliveira que ofer.ecia também um pagode. Eram verdadeiras festas, com os salões enfeitados e as “destaladeiras” bem inspiradas com o vinho, cantando os versos de despedida:

“ Rapaziada adeus, adeus “Adeus amante querido
Adeus, adeus que já me vou Adeus porta de meus pais
Eu levo pena e saudade Só venho aqui para o ano
Dos moreno que ficou” Por hoje não canto mais”
“ Adeus cajueiro “Despedida meu bem despedida
Adeus cajuí A nossa função se acabou
Adeus que eu vou-me imbora Vamos deixá para o ano
Para o ano eu volto aqui” Se nós todos vivo for”

À noite começava o forró com o salão repleto de trabalhadeiras, a poeira cobrindo ía até ao amanhecer do outro dia, ao som dos pés de bode de João Chico, Odilon Zumba, Lau Catenga, João Pernambucano.
Atualmente, apenas em alguns pontos da zona rural da região fumageira, as mulheres ainda cantam na destalação das folhas de fumo, porém, os proprietários quase não realizam festas comemorando o final da safra; também observa-se claramente que o processo tecnológico já se faz presente: muitos fumicultores utilizando automóveis, já entregam as folhas de fumo à domídiio e as recolhem no fim do dia; logicam.ente as mulheres não se reunem em salões para cantar. Também já penetraram até nos sítios o rádio, o gravador, a televisão, que irão fatalmente, eliminar uma das últimas formas de canto de trabalho que ainda existe no Brasil, impondo uma inevitável transformação na cultura do povo.

Hoje, com essas anotações, estamos tentando fazer um modesto registro dessas cantigas da colhejta de fumo de Arapiraca, para que elas não desapareçam com o passar do tempo. Esta pesquisa, entretanto, contém apenas uma amostragem com algumas cantigas e os versos tirados pelas cantadeiras dos salões da “Terra do Fumo”, a progressista Arapiraca.

Extraído – com autorização do autor – do Livro A Cantiga da Destaladeira de Fum de Arapiraca – do historiador Zezito Guedes

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